quinta-feira, maio 19, 2011

NUNCA PENSEI QUE UM DIA ESTARIA AQUI




-- Bento, eu nunca pensei que um dia estaria aqui -- me confidenciou Paulo Panarello, meu amigo e, à época, patrão.

Nós (eu, ele e a esposa dele) estávamos no Musikverein em Viena, na Áustria. Lá, todos os anos, no dia 1 de Janeiro, a Filarmônica de Viena dá um concerto especial que é televisionado e assistido por um bilhão de pessoas em mais de cinquenta países. Paulo perdera o pai com oito anos de idade e como eu conhecera a pobreza de perto. Lá, no Musikverein, que é um templo da música clássica mundial, vestidos de trajes de gala, nós estávamos embasbacados pela beleza de um concerto ao vivo.

-- Pois é, eu também nunca pensei que um dia estaria aqui. Mas, para mim, é melhor do que para você -- disse eu.

-- Mas por quê você diz isso? -- quis saber Paulo.

-- Ora, porque você está aqui gastando do seu dinheiro. Já eu estou sendo pago por você para estar aqui. Tem coisa melhor que isso? -- respondi, enquanto ríamos baixinho para não atrapalhar o concerto.

Lembrei desse episódio porque nenhum dos internos do Asilo com quem eu tenho conversado pensou que iria viver os últimos dias deles lá. Mas a vida sempre nos surpreende.

Outro dia fui apresentado a um dos sujeitos mais odiados da cidade. Ele foi flagrado cometendo um ato ilícito, o vídeo foi exibido no noticiário nacional, e agora ele paga pena alternativa no Asilo. Ele também nunca deve ter pensado que um dia estaria lá.

Claro, estar no Asilo para mim também é melhor do que para ele. Afinal, eu estou lá por livre e espontânea vontade. Ele está lá por decisão judicial.

No entanto, não importa a razão porque estamos no Asilo. Se for para estar lá, mesmo que nunca tenhamos pensado nisso, que sejamos como a "Juninha". Ela, mesmo sendo uma interna, sempre está com um sorriso nos lábios. Ainda há pouco, antes de ir almoçar, ela veio até mim, me deu um beijo, como sempre faz, e foi até onde estava o "Aurélio", que é cego (saiba mais sobre "Aurélio" em AVELOZ (Euphorbia tirucalli), pegou-o pelo braço e o conduziu até o refeitório.

Ah, eu vi Jesus na atitude daquela velhinha.

Que privilégio, Senhor!


Bjs Bento Souto

Um comentário:

Edsandro Monteiro disse...

Muito bom!