quarta-feira, abril 13, 2011

A VELHA CANTORA EVANGÉLICA!




Ela chegou ao Asilo em um veículo do Corpo de Bombeiros. Agentes Sociais do Município e Representantes do Ministério Público acompanharam a internação dela. Uma internação difícil, diga-se de passagem, pois ela não queria ficar. Porém, como ela havia sido atropelada -- a perna dela tem um ferimento que precisa de curativos diários --, morava sozinha, sem ter quem cuidasse dela, estava suja e sem cuidados higiênicos, as autoridades decidiram que era melhor entregar a velha senhora aos cuidados das Irmãs devotas do Santo Católico, mas que cuidam dos velhinhos indefesos e incapazes.

-- Não, eu não quero ficar aqui. Quero ir pra casa. Eu sou uma cantora evangélica. Canto hinos e músicas para louvar a Deus -- dizia ela, tentando convencer as Irmãs a deixá-la ir.

-- Pronto, aqui está um violão. Cante. Louve a Deus conosco -- disse uma das várias Irmãs que davam as boas vindas e tentavam convencer a velha senhora a ficar.

Ela cantou. Ou, pelo menos, tentou. Nenhuma das músicas era conhecida. Talvez fossem muito antigas ou apenas canções de grupos restritos que nunca gravaram LP e/ou, muito menos, CDs. Porém, isso não foi empecilho para a Irmã que tentava acompanhá-la ao violão. Ao final, a velha cantora ouviu muitas palmas como incentivo. Os olhos dela brilharam. Mas ela ainda não queria ficar.

Dando atenção a três velhinhos que jogavam Dominó comigo, e a outros três que aprenderam a gostar da algazarra que eu faço enquanto jogo, eu pensava no que estaria se passando na mente daquela velha cantora evangélica.

À semelhança de vários pastores evangélicos idosos que vivem em Asilos como aquele, pois as Denominações e Igrejas a quem eles serviram os abandonaram a própria sorte, aquela velhinha agora passará a depender dos cuidados daqueles a quem por toda a vida foram tratados como ímpios e idólatras. Eles ficam parecendo Judeus sendo alvo do amor de Samaritanos.

Deve ser muito doloroso para eles perceberem que não há um único Asilo Evangélico na cidade, nem em todo o Estado -- gostaria de saber se há no Brasil, alguém sabe? Sei de alguns evangélicos que estão internos naquele Asilo que são arredios, maleducados e malagradecidos. Ser abandonado pelos próprios parentes não é fácil. Imagine ser abandonado por aqueles a quem se cria serem "os filhos de Deus"? Mas isso é assunto para um outro dia.

Na hora do almoço, ela veio para o Refeitório. Mais calma, de banho tomado e com roupas limpas, ela parecia outra. No entanto, me parece claro que a adaptação dela levará algum tempo. Ouvi-a pedir:

-- Jesus, me tira daqui.

Ao ouvir isso fiquei pensando. Para onde Jesus a levará? Onde ela será amada e cuidada como naquele Asilo? Só se for para algum lugar depois do túmulo. Pois, aqui na Terra, entre os Evangélicos, não conheço tal lugar.


Abcs Bento Souto

6 comentários:

Marina disse...

Muito lindo o texto, mas a nossa Igreja tem o Lar samaritano que abriga a velinhos e velinhas independentes de sua tradição ou religiosidade. Minha sogra ( mesmo contra a minha vontade ) por ter uma dificuldade "mental" foi ficar ali num tempo em que eu nem sonhava em ser evangelica. Era uma catolica desfrutando da boa mão do Senhor e do carinho dos irmãos. Conheci varios lares adm por freiras são otimos. Mas o alerta que vc deu é perfeito, inspiração do Senhor. Abração A Paz
maria ines

Bento Souto disse...

Que bom, Marina, parabéns pra você e sua igreja pela iniciativa. Bj

Cy disse...

Bento, o Recanto dos Avós (Batista), em Guarulhos, foi fundado em 67, se não me engano. Veja Ytube http://www.youtube.com/watch?v=yp8koPkvB_k abç Cynthia Berzins

Cy disse...

Em Campo Grande, no Rio, também há um asilo batista.

Fernanda disse...

Bento, meu querido, amo seus textos!
Respondendo a sua pergunta, em Assis - SP tem um asilo evangélico e era de um pastor da Igreja Quadrangular. Como estou fora de lá há 5 anos, não sei quem toma conta e se ainda existe (deve existir). Se vc quiser, entro em contato com um pastor de Jundiaí, amigo meu pra mais detalhes, ok?
Abração!

Fernanda disse...

Bento, estive lendo o seu blog e me interessei pela história da cantora, fui voltando as postagens e parei aqui.

Que difícil deve ter sido para ela...e que grande aprendizagem sobre o Amor!

Aqui temos vários asilos de idosos e crianças. Pertinho da minha casa há um da igreja batista. Eu ia lá sempre, tinha uma "dinda" que não tinha parentes por perto e por um tempo fomos a família dela. Depois que faleceu estive poucas vezes lá, ainda é dolorido. Mas fazem um excelente trabalho.