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segunda-feira, agosto 08, 2011

DE QUEM EU “LAVO OS PÉS?”

jesus lava pe

Lucas, o evangelista, nos conta que surgiu entre os discípulos de Jesus uma disputa para saber quem seria o maior entre eles.

“Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve. Pois qual é maior: quem está à mesa ou quem serve? Porventura, não é quem está à mesa? Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve.”

Em seguida, deu aos discípulos um exemplo prático, para que não houvesse dúvida, de como é este servir, na prática.

[Jesus] “sabendo este que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido.

Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, e este lhe disse:

Senhor , tu  me lavas os pés a mim?

Respondeu-lhe Jesus:

– O que eu faço não o sabes agora; compreendê-lo-ás depois.

[…]

Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes:

– Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.”

Para mim, Jesus deixou claro duas coisas. 1. Entre os discípulos dele, o maior não é quem é servido. Se alguém ainda quiser ser maior, o caminho já está ensinado: servindo 2. Só saber como servir, não torna ninguém feliz. Só se torna feliz que sabe e pratica.

Onde eu vejo gente “lavando os pés dos outros?”

Quando vejo Érica e Ivanir, as duas noviças, cortando as unhas das mãos e dos pés dos idosos.

Quando vejo Irmã Fabíola fazendo curativos em gente que já teria morrido, não fosse o cuidado dela.

Quando vejo Irmã Joilma passando com a bandeja de remédios e administrando as doses a cada um dos doentes.

Quando vejo Rogério tirar da cama, vestir, sentar na cadeira de rodas, amarrar para não cair, levar para tomar sol e, depois, fazer a rotina inversa de tirar do sol, trazer para a cama, desamarrar, levar no banheiro, trocar fraldas, por no vaso, dar banho , por na cama, etc. em cada um dos velhinhos que desse tipo de cuidado precisam.

E, são vários deles que assim são servidos pelo Rogério e por outros funcionários do Asilo, como o jovem que mantém as dezenas de homens barbeados.

E eu? A quem eu “lavo os pés?”

Quando me levanto e ofereço um balde de lixo para que “O Pato” cuspa dentro dele. Sim, “O Pato”, um dos meus parceiros de Dominó, tem várias sequelas de um AVC e perdeu vários movimentos do corpo. Levantar de uma cadeira e ir até o lixo pra cuspir é algo que demanda muito tempo e esforço para ele. Eu “lavo os pés” do “Pato”.

A minha alma foi tomada pelo desejo de servir aos outros. Eu quero servir como Jesus disse que servir devia ser. Eu quero servir, não para ser maior que ninguém, pois o próprio Jesus já advertiu que somos todos do mesmo tamanho.

“Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou.”

Quero servir porque quero seguir o exemplo de Jesus. Porque me sinto feliz quando sirvo.

E você? Quer seguir o exemplo de quem? De Jesus? Ou dos reis e autoridades que se servem do povo? Ou dos que servem?

Medite nessas coisas.

Bento Souto

http://blogdobento.blogspot.com/

blogdobento@hotmail.com

terça-feira, junho 28, 2011

O SEM NOME MORREU


Ele escolheu cair justamente no Açude Velho – cartão postal da cidade onde se exercitam os habitantes mais abastados. Muitos passaram ao largo do corpo caído enquanto continuavam suas caminhadas e corridas. Alguém resolveu informar às freiras que vivem no Asilo São Vicente de Paulo que havia um homem caído.

As Irmãs Fabíola e Rosário foram até onde estava aquele que caíra e o trouxeram para o Asilo. O estado dele era deplorável devido aos muitos anos de vida nas ruas. Alimentaram-no. Mas ele não resistiu e morreu alguns instantes após o almoço.

O corpo foi levado para o IML (Instituto Médico Legal) e lá aguarda que alguém vá identificá-lo. Ninguém sabe o nome e nem a história dele.

Já vi muitas adaptações feitas à história do Bom Samaritano contada por Jesus em Lucas 10. Algumas são lindas. Mas essa que lhes conto é real e aconteceu ontem, 27/6/2011, aqui em Campina Grande, na Paraíba.

Milhares de aplicações e inferências podem ser feitas entre a história que Jesus contou e a morte do homem sem nome. Contudo, desejo me ater a apenas duas considerações.

A primeira é sobre a atitude de quem deu a notícia no Asilo de que havia um homem caído e precisando de ajuda. A grande maioria sequer se dá ao trabalho de informar às autoridades. Não custa nada ligar para 190 (Polícia Militar), 191 (Polícia Rodoviária Federal) 192 (SAMU) ou 193 (Corpo de Bombeiros). Quem diz que não pode ajudar, se ligar, informando, já ajuda.

A segunda é uma pergunta: em sua opinião, quem agiu com o homem caído de forma semelhante ao Samaritano da parábola que Jesus contou? Espero que você não tenha dúvidas de que foram as Irmãs Fabíola e Rosário.

Pessoalmente, tenho visitado e feito amizade com alguns dos que foram recolhidos das ruas por essas Irmãs. Não tenho a menor dúvida de que elas seguem o exemplo do Samaritano, pois eu as vejo cuidando das feridas, alimentado e medicando gente como aquele sem nome que morreu.

Ora, se você também não tem dúvidas de que o que as freiras do Asilo fizeram com o homem caído foi o que Jesus ensinou que devia ser feito; por que você não as ajuda a socorrer outros que também precisam de socorro?

Estou me dirigindo a você, que tem gratidão a Deus no coração e que gostaria de expressar essa gratidão através de uma doação. Você, que já está cansado(a) de ver a expressão da sua gratidão ser usada para enriquecimento de supostos "representantes de Deus", ou para a construção de templos que Jesus nunca pediu que fossem construídos.

Portanto, se você crê que as Irmãs do Asilo São Vicente de Paulo praticam o que Jesus ensinou, então, junte-se a elas. Doe. Considere a possibilidade de fazer uma doação mensal ao Asilo. Não pense que sua doação é insignificante. Lembre-se da viúva pobre que Jesus disse que deu mais do que todos, apesar dela ter dado apenas uma moedinha.

Quando escrevi o texto O "PIPIU", A "BUCHUDA" E O "CAMINHÃO" pedi ajuda para comprar uma mesa de Dominó e quatro cadeiras. Através da graça de Deus e da generosidade de um irmão, já compramos a mesa e as cadeiras e também um Condensador de Oxigênio – equipamento que beneficiará todos os internos do Asilo – conforme narrei em DEUS JOGA DOMINÓ? PARECE QUE SIM.

Também pedimos ajuda para aquisição de um Eletrocardiografo – equipamento que permitirá ao Cardiologista voluntário fazer Eletrocardiogramas no próprio Asilo. Hoje, agradeço mais uma vez a quem já doou e informo que faltam apenas R$ 850,00 para concluirmos a compra. Participe conosco. Doe.

Segue abaixo o endereço para doações de roupas e/ou alimentos:

INSTITUTO SÃO VICENTE DE PAULO

Rua Paulo de Frontin, 204 – Centro

58.400-310 - Campina Grande – PB


 

Se você quiser fazer uma doação em dinheiro, eis os dados:

INSTITUTO SÃO VICENTE DE PAULO

BANCO DO BRASIL

AG. 0063-9

C/C - 20.040-9

CNPJ 08.854.226/0001-61

FONE 83 3337-1470


 

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segunda-feira, junho 20, 2011

81 anos, "NOIVA" e DANÇANDO XAXADO

Festa Junina aqui em Campina Grande é coisa séria.

São 30 dias de festejos em tudo quanto é lugar – até no Asilo para velhinhos.

Nesse vídeo abaixo você vê o efeito que o forró de raiz (sanfona, zabumba e triângulo) exerce sobre Merilu, 81 anos, fantasiada de "noiva" na festa de São João do Asilo.



 

Quem tem o pique dela?

Quem tem a alegria dela?

Quem resiste ao som da sanfona?

Alguém duvida que Merilu (A VELHA CANTORA EVANGÉLICA) é mesmo dançarina, cantora e modelo?

Agora que estamos autorizados a realizar o projeto de transformar em "livro digital" as minhas visões e conversas com os que fazem parte da vida do Asilo (internos, funcionários, freiras, voluntárias, doadores, etc.), não há mais motivo para usar pseudônimos.

De qualquer forma é bom demais ver Merilu se divertindo e divertindo a muitos.

Para contribuição de roupas e alimentos:

INSTITUTO SÃO VICENTE DE PAULO

Rua Paulo de Frontin, 204 – Centro

58.400-310 - Campina Grande – PB


 

Se você quiser fazer uma doação em dinheiro, eis os dados da conta:

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DEUS JOGA DOMINÓ? PARECE QUE SIM


Quando eu escrevi O PIPIU, A BUCHUDA E O CAMINHÃO, ao final, pedi ajuda para comprar uma mesa para jogar Dominó. Alguns dias depois, recebi esse recado no Orkut:

Bento, apenas para identificação: depósito no BB, Ag.63-9, C/C 20.040-9, no caixa eletrônico da Ag.xxxx-x, valor de R$ 2.502,00, referente à aquisição de uma mesa de dominó, cadeiras, primeira rodada de refrí (rs...) e o que mais fôr necessário. Abs., NEle.

Agradeci com essas palavras:

Mano querido, que benção receber esse recado seu. Meu coração transborda de alegria pela sua doação, porque sei que antes do valor há uma vida que se doa ao Senhor, e somente Nele e dEle espera qualquer recompensa. Amanhã, comunicarei as Irmãs e meus parceiros da sua doação. Espero em breve postar uma foto de toda a "rapaziada" jogando Dominó, para nosso deleite mútuo. Grande abraço e muitíssimo obrigado. Bento Souto

O anônimo doador respondeu:

Obrigado pelas palavras, Bento, é uma felicidade me unir à vc e às Irmãs, mesmo de uma forma modesta, em prol desses momentos prá toda rapaziada, em nome DEle! Vc definiu bem, é um verdadeiro deleite... Como está escrito, "que a nossa alegria seja completa"! Sempre acompanho suas palavras, emocionei-me com o enterro daquele irmão... Grande abraço Mano! Com todo o agradecimento AO SENHOR, até mais...

Hoje, muito grato e feliz, estou cumprindo a promessa de postar uma foto da "rapaziada" jogando Dominó na nova mesa, orando para que a minha gratidão e felicidade também se estendam ao doador e aos que me lêem. Meus sobrinhos foram comigo para a "inauguração" da mesa. As irmãs providenciaram bolo e guaraná. Os internos, homens e mulheres, vieram celebrar conosco.




Com essa experiência eu aprendi algumas coisas e gostaria de compartilhá-las com vocês.

Aprendi de que eu devo fazer a minha parte, por mais insignificante que pareça, e deixar o resultado com Deus. Apenas quatro pessoas por vez podem jogar Dominó. Em um Asilo com mais de 70 internos, isso pode parecer muito pouco.

Aprendi também que quando cada um faz a sua parte, Deus assume o comando e o resultado é surpreendente. Nem eu e nem o doador poderíamos imaginar que a doação dele poderia vir a abençoar todos os internos, e não apenas os jogadores de Dominó. A mesa e as quatro cadeiras para a prática do Dominó custaram trezentos e poucos reais. As Irmãs resolveram aplicar o restante do dinheiro na aquisição de um Condensador de Oxigênio que custa cerca de R$ 2.800,00. Esse equipamento será de grande ajuda para vários internos que sofrem de insuficiência respiratória, o que obriga o Asilo comprar pequenas doses de oxigênio que custam R$ 90,00 cada.

Por último, com essa experiência eu também aprendi a não me impressionar com números ou popularidade. O texto que o doador anônimo menciona ter se emocionado muito ao lê-lo, INDO AO ENTERRO DE JESUS, é um dos menos acessados neste blog e menos comentados no Orkut ou no Facebook.

Finalizando, quero convidar você também a contribuir para a aquisição de um Eletrocardiografo. Já existe um Cardiologista voluntário que atende os internos lá mesmo no Asilo. No entanto, quando há necessidade de um Eletrocardiograma (e quase sempre há, devido a saúde precária deles), os internos precisam ser levados até a rede pública de hospitais – o que demanda o uso de um veículo para levar e trazer, gente para acompanhar o interno e paciência para esperar a vez nas imensas filas.

Peço apenas que caso você faça uma doação específica para a aquisição do Eletrocardiografo, por favor, me informe para que eu possa acompanhar com as Irmãs o andamento da campanha.

Para contribuição de roupas e alimentos:

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Rua Paulo de Frontin, 204 – Centro

58.400-310 - Campina Grande – PB


 

Se você quiser fazer uma doação em dinheiro, eis os dados da conta:

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sexta-feira, junho 17, 2011

FÁTIMA – UMA DAS AMANTES ANÔNIMAS DE JESUS


– Quando meu marido me abandonou com cinco filhos para alimentar foi aqui que eu encontrei comida para por na mesa e alimento para minha alma. Estou aqui há vinte anos e devo tudo que tenho primeiramente a Deus, e depois a essas irmãs que me acolheram e a quem eu sou infinitamente grata – me disse Fátima, uma das funcionárias do Asilo São Vicente de Paulo.

Histórias como a de Fátima são comuns entre as pessoas que trabalham no Asilo. Desejo compartilhar algumas delas a fim de que vocês possam ver a vida no Asilo por outros ângulos além do dos internos. Se Deus permitir quero que vocês conheçam algum (as) dos (das) funcionários (as), voluntários (as), doadores (as), freiras, etc., que são parte importante e, na maioria das vezes, anônima, do funcionamento daquela casa de acolhimento.

– Tenho cinco filhos/as e já disse a eles que quando ficar velhinha eu quero vir morar aqui. Eles dizem que os cinco darão conta muito bem de cuidar de mim. Mas eu já disse que não quero ficar longe desse ninho de amor – concluiu Fátima, dando sinais claros de que nutre pelo Asilo e por todas (os) que lá trabalham muito mais do que gratidão.

Confesso a vocês que não consigo explicar com palavras como essas pessoas sentem-se tão abençoadas fazendo um trabalho tão sem glamour e/ou aplauso. Sim, com palavras não consigo explicar. Porém, uma coisa eu posso dizer: experimentar a benção de servir a Jesus nessas condições é algo inefável, que faz um bem enorme para alma da gente. Dizem que o trabalho que Fátima e os demais fazem no Asilo é uma benção para os internos. Não tenho dúvidas de que é. Contudo, de minha parte, faço questão de dizer: o maior abençoado sou eu; o que condiz com meu nome, Bento – que significa abençoado.

Esse texto tem conexão com AMANTES ANÔNIMAS.

Em visto disso tudo escrito acima, quero convidar você a abençoar outros e também ser abençoado com esse gozo inefável na alma – que sentem aqueles que fazem algo para Jesus, conforme Ele mesmo explicitou em Mateus 25.

34 então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.

35 Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes;

36 estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.

37 Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber?

38 E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos?

39 E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?

40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.


 

Portanto, se você desejar fazer sua contribuição de roupas usadas ou novas, alimentos, medicamentos, fraldas geriátricas, etc., eis o endereço para onde enviar sua doação:

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Rua Paulo de Frontin, 204 – Centro

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Se você quiser fazer uma doação em dinheiro, eis os dados da conta:

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Deus lhe abençoe!


 

Bjs

Bento Souto

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segunda-feira, junho 06, 2011

O PIPIU, A BUCHUDA E O CAMINHÃO


Eu costumo dizer que, lá na casa do meu pai, Dominó é uma coisa séria. Meu sobrinho de cinco anos, Cauê, já domina a arte de jogar Dominó como poucos. Ele é o parceiro mais constante de meu pai (78 anos) em incontáveis partidas. Quem joga logo começa a dominar a língua do Dominó. Assim, o que para um observador comum significa uma peça com seis bolinhas de um lado e seis do outro, para um jogador de Dominó significa o "carroção ou carrão de sena". Ou seja, os números e peças são conhecidos por outros nomes, tais como:

1 = ás ou pio

2 = duque

3 = terno

4 = quadra

5 = quina

6 = sena

nada = branco

uma peça com números iguais nas duas partes = carrão ou carroção.


 

Bom, mas o que isso tem a ver com o título desse texto, O "PIPIU", A "BUCHUDA" E O "CAMINHÃO"?

Tem a ver com o fato de que nunca mais eu conseguirei olhar para uma pedra de ás ou pio, ou um "carroção de sena" sem lembrar de "Dario" (EU GOSTO É DE SATANÁS!). Leia o texto do link ao lado para você entender quem é "Dario".

"Dario", depois daquele episódio narrado em EU GOSTO É DE SATANÁS! se tornou nosso parceiro de Dominó. Não perde um dia. Quando eu chego e ele me vê, logo vem na minha direção querendo jogar. Eu me divirto quando vejo alguém jogar um "ás ou pio" e ouço o "Dario" dizer: "um pipiu". Também bolamos de rir quando ele joga o "carroção de sena" e chama de "caminhão", com aquela voz grave e profunda que ele tem.

Sim, o convívio diário com "Dario" tem me feito perceber a força poderosa do Amor. Sem nunca ter feito nenhuma sessão de exorcismo, mas muitos exercícios de paciência, dedicação e Amor, eu presencio "Dario" sentado ao meu lado, rindo, alegre, jogando Dominó, e não consigo deixar de me lembrar do episódio de Jesus e do endemoninhado gadareno, quando se diz que alguns "Indo ter com Jesus, viram o endemoninhado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo; e temeram". Claro, "Dario" não está em "perfeito juízo", assim como não estão muitos outros internos daquele asilo. Mas esse é um assunto entre ele e Jesus.

E a "BUCHUDA"? O que tem a ver com o texto?

"BUCHUDA" é o que se diz que leva aquele (a) que perde sem ganhar uma única partida. Hoje, eu joguei com o intuito claro de fazer "O Pato" ganhar de todos nós. É sempre um desafio intelectual maravilhoso jogar para perder. Na casa do meu pai eu jogo para ganhar e dar "BUCHUDA" em todos. Lá, no Asilo, eu jogo para perder e proporcionar alegria aos jogadores, principalmente, ao ganhador.

É um barato ver a folia e algazarra que acontece aos finais de partida. Gozações, pilhérias e impropérios são proferidos. No entanto, a memória de alguns já anda tão fraca que, após mexer as peças para uma nova partida, eles não se lembram mais quem ganhou.

Mas hoje "O Pato" disparou a ganhar. Quando o placar chegou em 8 para "O Pato", 2 para "Dario", 1 para "Thomas" e ZERO para mim, não agüentei as piadas e ganhei uma, frustrando o desejo deles de ver "O Pato" me dar uma 'BUCHUDA". Quem sabe algum dia eu não leve alegremente uma "BUCHUDA"? Quem sabe? Mas, hoje, não. rsrsrs

Aproveito esse texto para dar uma oportunidade a você de também proporcionar alguma alegria aos internos. Nós estamos precisando de uma mesa e quatro cadeiras para jogarmos Dominó. Atualmente, jogamos em uma mesa de leitura e/ou numa outra de alimentação, portanto, inadequadas (por serem muito grandes) para o jogo. Precisamos de uma mesa pequena e quatro cadeiras – que podem ser de plástico firme, para que os velhinhos não caiam. Se você quiser doar essa mesa, envie aos cuidados de Irmã Fabíola ou Irmã Joilma.

Segue abaixo o endereço:

INSTITUTO SÃO VICENTE DE PAULO

Rua Paulo de Frontin, 204 – Centro

58.400-310 - Campina Grande – PB


 

Se você quiser fazer uma doação, eis os dados:

INSTITUTO SÃO VICENTE DE PAULO

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AG. 0063-9

C/C - 20.040-9

CNPJ 08.854.226/0001-61

FONE 83 3337-1470


 

Antecipadamente agradeço.


 

Bjs Bento Souto

quarta-feira, junho 01, 2011

O SUMIÇO DO RÁDIO DE PILHA


Quando cheguei ao Asilo um grupo de senhoras entretia os idosos com brincadeiras com grandes bolas, canções, danças, etc. Ao me verem chegar a "rapaziada" do Dominó veio para a mesa e nós começamos a jogar. Lá pelas tantas, quando as senhoras arrumavam as cadeiras para sair, "Thomas", meu primeiro parceiro de Dominó no Asilo, lembrou que tinha deixado o rádio dele em uma das cadeiras e foi pegá-lo.

Infelizmente, ele não mais encontrou o rádio. As senhoras ficaram preocupadas e começaram uma busca. Devido à idade, pediram ao "Thomas" para ele ir até o armário checar se ele não tinha esquecido o rádio lá. Ele foi mas o rádio não estava lá.

Rádio é algo muito valioso no Asilo. Quase todos os idosos possuem um rádio. Além das roupas e da cama, o rádio é uma das poucas expressões de individualidade ainda presentes nos internos. Do banheiro ao refeitório, da televisão às áreas de lazer e circulação, tudo é compartilhado entre os internos. Mas o rádio não, cada um tem o seu.

Por isso, pela manhã é comum vermos dezenas de velhinhos aquecendo-se ao sol e cada um deles com um rádio de pilha. Cada um sintonizado no programa que lhes agrada. Curioso é perceber que os rádios sempre estão no volume máximo. Claro, a razão disso é porque a maioria dos velhinhos não escuta bem. Assim, para ouvidos sãos, o pátio fica parecendo uma grande feira onde há muito barulho e não se entende nada.

"Thomas" voltou a jogar conosco. Mas o rádio ainda estava sumido. Depois de alguns minutos Irmã Joilma chegou dizendo que o rádio estava com Luzia - aquela do NÃO SEI PORQUE ME ABANDONARAM AQUI.

Luzia tinha colocado o rádio dentro das calças e tinha ido para o pátio. Coisa típica de quem sofre de problemas mentais, pois seria impossível para ela desfrutar do rádio do "Thomas" sem que ninguém percebesse.

"Juninha", que veio toda alegre porque o rádio foi encontrado disse ao "Thomas" para lavar o rádio porque ele estava fedendo, pois o local onde ele estava alojado não cheirava muito bem...

Quase morremos todos de rir...

A vida no Asilo também pode ser muito alegre.


Bjs Bento Souto

terça-feira, maio 31, 2011

A VELHA CANTORA EVANGÉLICA COROOU MARIA



 

Abri a porta do carro e a voz de alguém cantando banhou os meus ouvidos com música. A aparelhagem de som não era das melhores. Mas a melodia da música e a voz da cantora embalaram meu ser. Fui me aproximando de onde vinha o som daquela música. Peraí, eu conheço aquela voz. É ela? É sim! É a velha cantora evangélica cantando uma música de amor. Click no play do vídeo abaixo e, enquanto escuta a música, leia o texto a seguir.


 

Saudade palavra triste quando se perde um grande amor
Na estrada longa da vida eu vou chorando a minha dor
Igual a uma borboleta vagando triste por sobre a flor
Teu nome sempre em meus lábios irei chamando por onde for
Você nem se quer se lembra de ouvir a voz deste sofredor
Que implora por teus carinhos, só um pouquinho do teu amor.
Meu primeiro amor
Tão cedo acabou só a dor restou
Neste peito meu
Meu primeiro amor
Foi como uma flor que desabrochou
E logo morreu
Nesta solidão
Sem ter alegria o que me alivia
São meus tristes ais
São prantos de dor
Que dos olhos caem
É porque bem sei quem eu tanto amei
Não verei jamais. 

MEU PRIMEIRO AMOR (Herminio Gimenez)


 

Quando ela cantou a última sílaba, o auditório irrompeu em aplausos ruidosos, eu, inclusive. Definitivamente, a velha cantora evangélica se dá muito bem com um microfone na mão. Ela ainda cantou mais uma ou duas músicas completamente desconhecidas. Mas o brilho com que ela cantou MEU PRIMEIRO AMOR não se apagou. Nem mesmo depois que "Seu Valdomiro" cantou uma "Ave Ave Maria" como há muito eu não ouvia.

Era dia de festa. Algumas mulheres da Associação das Irmãs da Caridade de Campina Grande estavam lá e trouxeram todos os idosos que quiseram ir para o auditório. Todas as terças-feiras elas vão lá, pela manhã, com o objetivo de entreter os velhinhos. Elas fazem brincadeiras e oferecem chás e biscoitos a todos. Os velhinhos se alegram. Elas, muito mais. Fazer o bem faz tão bem que é impossível não notar o sorriso no rosto de cada uma delas.

A "rapaziada" do Dominó começou a vir na minha direção fazendo sinais para irmos jogar. Uma criança de 9 anos, Ellen, neta de uma dessas irmãs, me pediu para jogar conosco. A alegria e a espontaneidade dela logo conquistaram a todos nós. Crianças e Idosos, "tudo a ver", como diz a famosa vinheta. Muitas palmas são ouvidas vindas do auditório. Logo, em seguida, a velha cantora veio até onde nós estávamos, trocamos o costumeiro beijo de cumprimento, então, ela me disse:

– Fiquei muito honrada, dentre todos os que estavam no auditório, essas pessoas escolheram a mim, para corar Maria, a mãe de Deus.

– E você coroou? – perguntei.

– Coroei, sim, foi um dos momentos mais importantes da minha vida – respondeu ela, transbordante de alegria.

Pensei comigo mesmo o seguinte: as pessoas desse Asilo, finalmente, conquistaram o respeito da velha cantora evangélica.

Eu não acredito em Maria como essas Irmãs acreditam.

Mas eu acredito no Amor delas por aqueles a quem eu também estou aprendendo a amar.

Isso é suficiente para mim.

Isso é suficiente para você também?


 

Bjs Bento Souto

INDO AO ENTERRO DE “JESUS”


– A "criancinha" morreu – disse "Dario" , assim que eu cheguei ao Asilo e ele veio ao meu encontro para jogarmos Dominó.

– Qual "criancinha" que morreu? – perguntei.

– Aquela que tinha um pedaço faltando – respondeu ele, sinalizando com o braço que o pedaço que faltava à "criancinha" era uma perna.

Em sua linguagem metafórica e de poucas palavras, "Dario" estava me dizendo que um dos velhinhos havia morrido. Vim saber depois que a "criancinha" era o senhor Pedro Veríssimo, 81 anos, que havia tido uma perna amputada devido a problemas causados pelo Tabagismo.

Naquele lugar, a Morte é uma companhia constante e implacável. Nas fotografias expostas no salão principal do Asilo, se pode notar, claramente, a ação dela. Quase todos que aparecem nas fotos já morreram. Seu Pedro era apenas mais deles.

Irmã Fabíola perguntou se eu podia ir até o cemitério com ela para acompanhar o enterro e trazê-la de volta depois. Nenhum dos parentes de Seu Pedro apareceu para o velório na pequena capela existente ali e muito utilizada.

– Nunca apareceram quando ele era vivo, vão aparecer agora que ele morreu? – pergunta, com muita lucidez, um dos internos.

Eu e alguns internos jogamos Dominó até que Neide – funcionária que lá trabalha há 13 anos – nos desalojou de nossa mesa, para passar o pano no chão e limpar o ambiente. Enquanto guardava o Dominó, vi a velha Santana Quantum da funerária chegar e seguir na direção da capela.

Na capela, algumas Irmãs fizeram uma oração de despedida enquanto o motorista da funerária tentava encontrar alguns pregos para fixar a tampa do caixão, pois, ele havia esquecido os parafusos feitos para esse fim na funerária. Depois de fixada a tampa do caixão com os pregos que um dos funcionários do Asilo conseguiu encontrar no Almoxarifado, o caixão foi colocado na traseira do velho carro.

– Quando é alguém com mais dinheiro, vem um carro maior. Quando é alguém mais pobre, vem esse carro aí – diz Irmã Fabíola, mostrando que até na Morte há distinção entre Ricos e Pobres.

Saímos do Asilo em direção ao Cemitério. O velho Santana Quantum seguiu na frente e eu, Irmã Fabíola e Érica – que se prepara para ser freira – seguimos atrás, no meu carro. Cruzamos a cidade em velocidade normal, passando por veículos e pedestres que não se deram conta da nossa carga e nem do nosso destino.

Chegamos ao Cemitério e apenas um funcionário administrativo e o coveiro nos aguardavam. O funcionário conferiu a papelada e o motorista e o coveiro colocaram o caixão no carrinho próprio para o transporte. Terminava ali o trabalho do motorista da funerária e o funcionário do Cemitério retornou para o escritório.

Irmã Fabíola, Érica, eu e o coveiro seguimos para o local onde o falecido será enterrado. Passamos pela área de túmulos de pedras e seguimos para a área de covas abertas diretamente no chão – evidência de mais uma divisão entre Pobres e Ricos.

Atravessamos quase todo o Cemitério para chegar ao nosso destino – o local mais distante da entrada. Uma cova previamente aberta nos aguardava. Só que não havia mais homens para ajudar e eu e o coveiro tivemos que nos virar sozinhos. Ele entrou na cova, pegando numa ponta do caixão, enquanto eu, na outra ponta, segurando duas cordas, o ajudei a por o caixão dentro da cova.

Uma mulher que por ali passava reconheceu a Irmã Fabíola e se juntou a ela e a Érica para uma última oração. Quando o coveiro começou, com a pá, o trabalho de cobrir o caixão com a terra da cova aberta, eu falei:

– Da terra viemos e para a terra voltaremos. Ó Deus, Te agradecemos o privilégio que nos deste de conviver com o Seu Pedro.

Silenciosamente, no meu coração, agradeci o privilégio de enterrá-lo na companhia de quem amou Seu Pedro em vida.

– Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes – disse Jesus.


 

Bjs Bento Souto

quinta-feira, maio 26, 2011

AMANTES ANÔNIMAS



- O senhor gosta daqui do Asilo, não é? - me perguntou uma senhora que trabalha na cozinha do Asilo em que tenho sido voluntário.

- Gosto sim. Vir aqui e fazer novos amigos tem feito muito bem a minha alma - respondi.

- Eu também gosto muito e trabalho aqui há 20 anos - completou ela, antes de voltar aos seus afazeres.

Fiquei ali meditando uns instantes em como são os anônimos que mais honram o nome de Deus na face da terra. São os que amam como aquela mulher.

Amam aqueles que em muitos casos não são mais amados por ninguém.

Amam, sem ter como alvo nenhuma recompensa humana. Não esperam ficar famosos como alguns religiosos.

Não esperam qualquer retribuição daqueles a quem eles amam, haja vista que o destino dos velhinhos é morrer naquele Asilo.

Amam, como Jesus amou, confiando apenas no amor do Pai e Nele esperando.

Por amarem como Jesus amou, também são reconhecidos pelos homens como "enviados de Deus". É através do testemunho deles que o mundo reconhece que Deus enviou Jesus, segundo João 17.

O amor desses anônimos por Jesus e pelo próximo fala mais alto do que qualquer Declaração de Fé escrita por qualquer instituição religiosa.

Eles amam com ações, e não com palavras escritas em papel, recitadas em catecismos, cantadas em canções ou declaradas nas redes sociais da Internet

Anônimos, que amam Jesus e o próximo, como aquela mulher, são como "carta de Cristo". Foi acerca deles que o apóstolo Paulo escreveu:

"Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações."


Senhor Jesus, faz de mim também uma carta do Teu amor aos que estão ao alcance das minhas ações e palavras. Esse é o desejo do meu coração e também a minha oração. Amém!

E você? Também quer ser um dos amantes anônimos de Jesus?


Abcs Bento Souto

segunda-feira, maio 23, 2011

SE NÃO CHAMAREM SEU DEUS DE “JESUS” ELE NÃO ATENDE?





SE NÃO CHAMAREM SEU DEUS DE “JESUS” ELE NÃO ATENDE?

“Quem conhece a Deus ama, quem não o conhece não ama”.

Uma coisa interessante quando se trata do modo como Jesus vai sendo apresentado no Novo Testamento tem a ver com o Seu nome relacional com a História, os indivíduos e com a Trans-história; ou seja: com a eternidade.

Primeiro Ele é o Emanuel, que quer dizer Deus conosco. Ora, Emanuel é o nome do trans-fenômeno da Encarnação na História.

Depois se diz a Maria que Ele seria chamado pelo nome Jesus, que quer dizer: Ele salvará o povo dos seus pecados; remetendo-nos assim para a Sua relação com os indivíduos que viessem a conhecer o Evangelho como Informação; ou seja: na base mais simples da relação existencial entre uma pessoa e sua consciência existencial acerca de Jesus em sua própria vida.

A seguir Ele é chamado de o Cristo, e, com isso, se afirmava a promessa feita aos Patriarcas quanto ao fato de que da descendência de Abraão e Davi viria o “Enviado”; ou seja: o Messias, o Ungido, e, portanto, segundo a língua grega, o Cristo.

Então vem Paulo...

Ora, mais do que qualquer outro é Paulo quem o chama de Jesus, de Jesus Cristo, de Cristo Jesus, e, além disso, o chama de Deus mesmo; ou seja: de Emanuel; isto ao ponto de dizer que Nele subsistem todas as coisas, que Ele é a imagem do Deus invisível; e mais que isto: Aquele em Quem, por Quem e para Quem todas as coisas são e foram criadas.

A seguir vem João...

João o chama de Verbo, usando um conceito existente entre os pensadores Iônicos da Ásia Menor; sendo que em João o conceito é ampliado para significar não a Razão Pura por trás de tudo, mas, antes disso, o Sentido Absoluto e Amoroso de todas as coisas na criação.

Desde João Batista Ele, Jesus, fora chamado de Cordeiro; embora seja já no Apocalipse de João que a figura de Jesus como o Cordeiro de Deus se sobreponha a todas as demais designações relacionadas ao Deus Encarnado, ao Messias, ao Cristo, ao Salvador; e mais que isto: apontava para a Revelação de Deus em Sua amplidão trans-histórica; ou seja: falava do Emanuel para os que Dele sabiam e para os que Dele nunca nada souberam.

Jesus, como nome, está irremediavelmente vinculado à história individual de todos os que receberam a informação do Evangelho.

O Cristo está aberto ao sentido da esperança pessoal de cada um, e, além disso, não determina que o professante saiba qualquer coisa da história de Jesus, mas apenas da experiência existencial com Ele, tenha havido consciência de Sua História entre os humanos ou não para aquele que tenha tal Esperança.

Cristo Jesus designa o fato de que Aquele que é a Esperança de todos os homens, ainda quando não saibam nada sobre Ele, é o Jesus da história dos que conheceram o Evangelho como Informação.

Jesus Cristo é um nome de afirmação na pregação que visa dizer: a Esperança dos humanos tem nome e uma história a ser contada.

O Cordeiro, todavia, se diz que é desde antes de haver Cosmos; e mais: é Ele quem encerra os nomes de Deus na História, quando, no Apocalipse, depois das Cartas às Sete Igrejas e mais três outras afirmações no corpo do texto, Aquele que é o Emanuel, Jesus, Cristo, Verbo, etc. — transcende tudo, e volta ao Principio antes de todos os começos, e passa a ser chamado apenas e tão somente de Cordeiro.

Jesus, Jesus Cristo e Cristo Jesus são designações temporais; porém o Cordeiro é atemporal e eterno: existia antes de tudo e será assim depois de tudo.

A mente religiosa, todavia, só enxerga Jesus onde Ele seja nomeado pelas letras J-E-S-U-S.

Até mesmo a designação “o Cristo” não é bem sentida na alma pela maioria das pessoas da religião; pois, para elas, o Cristo que não diga “Muito Prazer em conhecê-lo. Meu nome é Jesus!” — não serve ao propósito de fazer crentes se reunirem.

Então vem o João do Verbo e do Cordeiro; o João do Apocalipse, e, como ninguém antes [...], apenas insiste que a Igreja saiba Seu nome, mas que Ele mesmo é o Cordeiro sobre tudo e todos; até sobre os que nunca nada Dele souberam.

No fim o Apocalipse nos mostra apenas o Cordeiro; e diz que em Sua Cidade ou Sociedade Eterna, não haverá nomes históricos de Deus a serem pronunciados; visto que lá não haverá [não há] religião e nem santuário; sendo que os humanos subirão para adorar apenas Aquele que se chama de modo indesignável pelo nome de Cordeiro.

Quem entende isso hoje já começa a ver Jesus onde o Seu nome é anunciado; e também passa a discerni-Lo até mesmo onde Seu nome não seja conhecido historicamente como uma Informação, mas que, nem por causa disso, Ele deixe de se revelar aos homens como a verdadeira Luz que vinda ao mundo ilumina a todo homem.

Afinal, João começa o Evangelho do mesmo modo como encerra seu Evangelho Eterno e Escatológico, o Apocalipse; ou seja: chamando-O apenas de Verbo e de Cordeiro; e mais: afirmando que todos os humanos apenas e tão somente viverão da Sua Luz, a qual é e será sobre todos, sem que as nomenclaturas sirvam mais para designar ou mesmo para ideologizar a revelação, conforme acontece hoje com o nome Jesus; o qual é genuíno, mas foi pervertido pela religião para significar “Aquele que nós conhecemos”, em contraposição aos que “não o conheçam” — conforme os “cristãos” imaginam que exclusivamente se possa conhecê-Lo; ou seja: como uma Informação.

Afinal, tudo isto não tem valor eterno; posto que Aquele que me diz que eu tenho um novo nome que eu mesmo não conheço, é o mesmo que diz que nos revelará o Seu nome, o qual ninguém conhece, exceto aquele a quem Ele o revelar.

Portanto, calem-se os lábios que usam o nome de Jesus como grife, e não deixam que as pessoas apenas vejam, saibam e creiam que Deus é amor, e que o resto é a finitização da revelação para compreensão humana nas contingencias da história, do tempo, do espaço, da cultura e da finitude de nossas próprias percepções.

Nele, que é a Luz, o Cordeiro, o Amor e a Vida Eterna,

O texto acima é do meu amigo "Caio Fábio"

Eu assino embaixo.


Abcs Bento Souto

quinta-feira, maio 19, 2011

NUNCA PENSEI QUE UM DIA ESTARIA AQUI




-- Bento, eu nunca pensei que um dia estaria aqui -- me confidenciou Paulo Panarello, meu amigo e, à época, patrão.

Nós (eu, ele e a esposa dele) estávamos no Musikverein em Viena, na Áustria. Lá, todos os anos, no dia 1 de Janeiro, a Filarmônica de Viena dá um concerto especial que é televisionado e assistido por um bilhão de pessoas em mais de cinquenta países. Paulo perdera o pai com oito anos de idade e como eu conhecera a pobreza de perto. Lá, no Musikverein, que é um templo da música clássica mundial, vestidos de trajes de gala, nós estávamos embasbacados pela beleza de um concerto ao vivo.

-- Pois é, eu também nunca pensei que um dia estaria aqui. Mas, para mim, é melhor do que para você -- disse eu.

-- Mas por quê você diz isso? -- quis saber Paulo.

-- Ora, porque você está aqui gastando do seu dinheiro. Já eu estou sendo pago por você para estar aqui. Tem coisa melhor que isso? -- respondi, enquanto ríamos baixinho para não atrapalhar o concerto.

Lembrei desse episódio porque nenhum dos internos do Asilo com quem eu tenho conversado pensou que iria viver os últimos dias deles lá. Mas a vida sempre nos surpreende.

Outro dia fui apresentado a um dos sujeitos mais odiados da cidade. Ele foi flagrado cometendo um ato ilícito, o vídeo foi exibido no noticiário nacional, e agora ele paga pena alternativa no Asilo. Ele também nunca deve ter pensado que um dia estaria lá.

Claro, estar no Asilo para mim também é melhor do que para ele. Afinal, eu estou lá por livre e espontânea vontade. Ele está lá por decisão judicial.

No entanto, não importa a razão porque estamos no Asilo. Se for para estar lá, mesmo que nunca tenhamos pensado nisso, que sejamos como a "Juninha". Ela, mesmo sendo uma interna, sempre está com um sorriso nos lábios. Ainda há pouco, antes de ir almoçar, ela veio até mim, me deu um beijo, como sempre faz, e foi até onde estava o "Aurélio", que é cego (saiba mais sobre "Aurélio" em AVELOZ (Euphorbia tirucalli), pegou-o pelo braço e o conduziu até o refeitório.

Ah, eu vi Jesus na atitude daquela velhinha.

Que privilégio, Senhor!


Bjs Bento Souto

sexta-feira, maio 13, 2011

O QUE EU JÁ APRENDI COM A MORTE?




Morreram duas Marias --sobre quem eu nada sabia. Uma morreu na semana passada e outra anteontem. Ontem, morreu Wellington (nome verdadeiro). Eu havia visto, ao sair para o almoço, ontem, a Irmã Aída dando a comida na boca dele, como ela sempre fazia. Hoje, Wellington não está mais lá. "Ele foi fazer a última viagem; aquela que todos nós vamos fazer um dia", disse-me "O Pato", um dos meus parceiros de Dominó no Asilo.

Salomão, o famoso sábio rei de Israel, disse que [i][blue]Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.[/i][/blue] Eu concordo com ele. Salomão também disse que [i][blue]O coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria.[/i][/blue] Isso me torna um sábio? De jeito nenhum. Madre Tereza de Calcutá assistiu milhares de famintos e outros milhares que estavam à beira da morte. Estou ciente da enorme distância que há entre eu e ela.

Contudo, uma coisa eu já aprendi: O Asilo é o inverso do Orfanato.

No Orfanato, a Consciência das crianças cresce a cada dia.

No Asilo, os velhinhos vão perdendo a Consciência a cada dia.

No Orfanato, as crianças se movimentam cada dia mais.

No Asilo, os velhinhos se movimentam cada dia menos.

Quando são adotadas, as crianças saem do Orfanato e vão viver em uma família.

Os velhinhos vão viver no Asilo porque não conseguem mais viver em família -- e do Asilo, vivos, não saem mais.

Aprendi também que Asilos e Orfanatos tem uma coisa essencial em comum: eles só funcionam por causa de gente de coração generoso e compassivo, como Madre Tereza de Calcutá, George Muller e tantos outros anônimos como a Irmã Aída e aqueles que contribuem com seus trabalhos, suas vidas e seus recursos.

Isso foi o que eu já aprendi... Mas ainda há muito o que aprender.


Beijão Bento Souto

terça-feira, maio 03, 2011

AINDA SOBRE A VELHA CANTORA EVANGÉLICA!




-- Ó Deus, tem misericórdia de mim. Tem misericórdia de mim... -- essa era a oração que com todo fervor fazia a velha cantora evangélica.

Todas as vezes em que ouço a lucidez de um coração submisso a Deus, eu me considero um privilegiado por estar em "terra santa". Muitas foram as vezes que eu conversei com a velha cantora evangélica. Ouso dizer que nos tornamos amigos. Sim, o Dominó foi só um lazer que nos aproximou. Depois de várias conversas eu admiro aquela velha senhora de 81 anos cada vez mais. Ela foi uma das que mais sentiu a minha ausência de duas semanas por causa da Dengue que me pegou.

-- Não, esses ladrões que estão enganando o povo não são pastores, são falsos profetas. Esse tal de Edir Macedo é o principal deles -- são os argumentos mais lúcidos que eu ouço aquela velhinha dizer.

Claro, nem sempre a mente enxerga a realidade. Muitas vezes, a mente prega peças e aqueles idosos enxergam o que somente para eles é realidade.

-- Tem um velho ruim lá na minha casa. Ele já estuprou 22 mulheres. Enquanto eu estou aqui, no Asilo, ele se apossou da minha casa e está dormindo na minha cama. Ele tem um celular diferente. Ele colocou um chip no meu ouvido. Ele fala no celular lá e eu ouço dentro da minha cabeça. Agora mesmo ele está apertando um botão que faz meu braço queimar. Tá queimando. Tem misericórdia, ó Deus! -- diz ela, enquanto chora e coça o braço tentando se livrar da queimadura invisível.

Querer separar o que achamos real do que eles dizem ser real me parece ser tarefa de tolos. Entender e aprender a conviver com o que é realidade, para eles, me parece ser o mais sábio a fazer.

-- Eu canto nas igrejas. Sou da Assembléia de Deus. Já cantei em mais de 10 estados do Brasil. Eu vivo de cantar para Jesus -- repete ela para todos. Outro dia eu fiquei sabendo através de uma vizinha que a velhinha também lutava karatê; e isso me fascinou.

Porém, o que mais me fascina é ver os cuidados diários dispensados àquela velhinha pela equipe que lá trabalha. Outro dia eu vi ela dando um beijo de gratidão na menina que corta as unhas. Aquele sorriso de quem se sente amada é algo que não tem preço.

Como eu já disse outras vezes, creio que o amor sempre vence!


Abcs Bento Souto

segunda-feira, abril 25, 2011

EU GOSTO É DE SATANÁS!






-- Eu gosto é de Satanás. Eu não gosto de Deus. Já estou condenado ao Inferno -- era isso que "Dario" bradava a plenos pulmões.

Me aproximei de "Dario", olhando nos olhos dele, buscando algum sinal de possessão demoníaca. Afinal, eu já conversara com ele algumas vezes e ele sempre se mostrara um sujeito muito afável, apesar de nem sempre conseguir dizer coisa com coisa. Enquanto orava, no Espírito, pedindo a Deus por discernimento, também chegou perto de mim uma Irmã e disse:

-- Ligue para isso não, Bento. Ele não sabe o que está dizendo. Isso ainda é crise de abstinência do alcóol. Há dois anos ele chegou aqui. Morava na rua e bebia mais de três litros de cachaça por dia. Doutor João, o médico do Asilo, nos disse que não cortássemos o alcóol de uma vez, pois isso poderia matá-lo. Nós dávamos um copo de cachaça por dia para ele. Mas ele esteve muito mal de saúde, no final do ano, e tivemos que cortar a cachaça por causa dos medicamentos. Por isso, quando está agoniado pela falta da cachaça, ele fala essas coisas. Mas Deus releva isso. "Dario" não sabe o que está dizendo.

Eu pensei comigo mesmo. Se nós, seres imperfeitos, somos capazes de perceber algumas loucuras e relevá-las, que dirá Deus?

Desde os dia em que uma moradora de rua disse o nome completo de um amigo meu, sem o conhecê-lo, e em Inglês perfeito, eu já vi muita loucura sendo tratada com exorcismo e possessos sendo tratados com Gardenal. Outro amigo, com muito mais experiência nessa área, me disse que, certa vez, olhou para um possesso com tanto amor, mas com tanto amor, que o demônio não resistiu e saiu sem que meu amigo dissesse uma palavra.

Após alguns minutos de carinho e cuidado, "Dario" voltou a ficar tranquilo e eu lembrei da recomendação do apóstolo Pedro.

"Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados" (1 Pedro 4:8).

E a vida no Asilo voltou ao normal. Sem a neurose e o espetáculo que afirmações como a que "Dario" fez provocaria em certos ambientes ditos "cristãos".

Dei graças a Deus por tudo que presenciei e, principalmente, por ver que "o Amor sempre vence".


Abcs Bento Souto

terça-feira, abril 19, 2011

O QUE É AQUILO?




"Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive. Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele; não o humilhes em nenhum dos dias de sua vida: a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados e, na justiça, será para tua edificação" Eclo 3,14:17


Abcs Bento Souto

segunda-feira, abril 18, 2011

O LAMENTO QUE MAIS OUÇO NO ASILO





De vez em quando eu ouço gemidos e lamentos abafados dos internos do Asilo. São dores físicas, emocionais e psiquícas que acometem alguns deles -- mulheres, principalmente, por serem mais sensíveis.

O que dizem esses sussurros? Com certeza, eu não sei. Mas, se tivesse que tentar adivinhar, eu diria que é mais ou menos isso, a seguir, que aquelas almas me falam, ainda que seja sem palavras:

"Eu os gerei. Por nove meses, carreguei-os em meu próprio ventre. Eles se alimentaram dos meus peitos e do que eu comprei e cozinhei para eles. Limpei cocô e xixi que eles faziam em qualquer lugar. Dei um duro danado para que eles pudessem ir para a escola e se formassem. Abri mão de minha carreira profissional para ficar em casa cuidando deles. Agora, em recompensa por todo meu esforço, eles me mandaram para cá. Alegam que eu agora incomodo. Eles já me incomodaram muito mais. Mas, por amá-los, tudo fiz e faria de novo.

Será que eles entendem o que estão fazendo comigo? Talvez não. Bom, quando eles ficarem velhos irão entender da maneira mais dura: quando os filhos deles os mandarem pra cá."



Abcs Bento Souto

sábado, abril 16, 2011

A VELHA CANTORA EVANGÉLICA 2





Depois da internação forçada, o dia seguinte da velha cantora evangélica me pareceu bem melhor.

Quando eu cheguei ao Asilo, no meio da manhã, a Irmã Fabíola estava fazendo curativos e cortando as unhas da velhinha. Com um sorriso no rosto, roupas limpas e uma aparência bem melhor, ela falava quase sem parar.

-- Eu sou missionária. Prego o Evangelho de Jesus nas igrejas -- dizia ela, entre outras coisas.

-- Como é o seu nome? -- perguntei.

Ela me olhou, sorrindo, mas sem entender o que eu havia perguntado. Então, eu percebi duas coisas. A primeira é que ela é mesmo evangélica. Pois, eu nunca vi gente para falar tanto como os evangélicos. Como falam. Quase não escutam. Quando a gente pensa que eles estão ouvindo o que a está gente dizendo, na verdade, não estão, mas preparando a o que vão dizer em seguida... rsrs

A segunda coisa foi que a velhinha tem dificuldades de audição. Sim, um dos sintomas de que pessoas idosas estão com dificuldade de audição é falar sem parar. Elas não dão chances para que os outros falem porque elas não escutam o que os outros dizem.

Me retirei para uma mesa distante onde outros velhinhos me aguardavam para o Dominó. De lá, fiquei olhando para o Evangelho que a Irmã Fabíola pregava para a velhinha: o do Amor sem palavras, que cuida, que ama, que faz o bem sem esperar nada em troca.

Absorto pelo Dominó, que atrai mais velhinhos a cada dia, não percebi a chegada da velha cantora evangélica ao grupo que estava comigo. Quando me dei conta, ela estava ao meu lado, olhando as minhas pedras.

-- A senhora joga Dominó? -- perguntei.

-- Jogo, sim -- disse ela.

Dei as minhas pedras para ela e pedi que ela assumisse o meu lugar. Pensei que iria ter que ajudá-la a reconhecer as pedras, pois muitos não enxergam o suficiente. Que nada. A velhinha não só enxerga como joga Dominó muito bem. Depois da terceira partida que ela ganhou, ninguém teve dúvidas de que temos uma nova parceira de Dominó.

A disputa só terminou quando o cheiro da comida venceu a vontade de jogar. Ela levantou-se e caminhou na direção do refeitório. Agora, sem mais greve de fome por ficar num lugar em que não queria. Mas, sorrindo, com um novo brilho nos olhos.

Acho que Rob Bell está certo no que diz: O Amor Vence!


Abcs Bento Souto

quarta-feira, abril 13, 2011

A VELHA CANTORA EVANGÉLICA!




Ela chegou ao Asilo em um veículo do Corpo de Bombeiros. Agentes Sociais do Município e Representantes do Ministério Público acompanharam a internação dela. Uma internação difícil, diga-se de passagem, pois ela não queria ficar. Porém, como ela havia sido atropelada -- a perna dela tem um ferimento que precisa de curativos diários --, morava sozinha, sem ter quem cuidasse dela, estava suja e sem cuidados higiênicos, as autoridades decidiram que era melhor entregar a velha senhora aos cuidados das Irmãs devotas do Santo Católico, mas que cuidam dos velhinhos indefesos e incapazes.

-- Não, eu não quero ficar aqui. Quero ir pra casa. Eu sou uma cantora evangélica. Canto hinos e músicas para louvar a Deus -- dizia ela, tentando convencer as Irmãs a deixá-la ir.

-- Pronto, aqui está um violão. Cante. Louve a Deus conosco -- disse uma das várias Irmãs que davam as boas vindas e tentavam convencer a velha senhora a ficar.

Ela cantou. Ou, pelo menos, tentou. Nenhuma das músicas era conhecida. Talvez fossem muito antigas ou apenas canções de grupos restritos que nunca gravaram LP e/ou, muito menos, CDs. Porém, isso não foi empecilho para a Irmã que tentava acompanhá-la ao violão. Ao final, a velha cantora ouviu muitas palmas como incentivo. Os olhos dela brilharam. Mas ela ainda não queria ficar.

Dando atenção a três velhinhos que jogavam Dominó comigo, e a outros três que aprenderam a gostar da algazarra que eu faço enquanto jogo, eu pensava no que estaria se passando na mente daquela velha cantora evangélica.

À semelhança de vários pastores evangélicos idosos que vivem em Asilos como aquele, pois as Denominações e Igrejas a quem eles serviram os abandonaram a própria sorte, aquela velhinha agora passará a depender dos cuidados daqueles a quem por toda a vida foram tratados como ímpios e idólatras. Eles ficam parecendo Judeus sendo alvo do amor de Samaritanos.

Deve ser muito doloroso para eles perceberem que não há um único Asilo Evangélico na cidade, nem em todo o Estado -- gostaria de saber se há no Brasil, alguém sabe? Sei de alguns evangélicos que estão internos naquele Asilo que são arredios, maleducados e malagradecidos. Ser abandonado pelos próprios parentes não é fácil. Imagine ser abandonado por aqueles a quem se cria serem "os filhos de Deus"? Mas isso é assunto para um outro dia.

Na hora do almoço, ela veio para o Refeitório. Mais calma, de banho tomado e com roupas limpas, ela parecia outra. No entanto, me parece claro que a adaptação dela levará algum tempo. Ouvi-a pedir:

-- Jesus, me tira daqui.

Ao ouvir isso fiquei pensando. Para onde Jesus a levará? Onde ela será amada e cuidada como naquele Asilo? Só se for para algum lugar depois do túmulo. Pois, aqui na Terra, entre os Evangélicos, não conheço tal lugar.


Abcs Bento Souto

terça-feira, abril 12, 2011

"Seu Manoel", MERCÊS e JEAN-DOMINIQUE BAUBY





"Seu Manoel" se encontrava sentado/deitado numa cadeira, impossibilitado de se mover, a menos de dois metros da mesa em que eu jogava Dominó com outros internos. O "anjo de Deus" que cuida da cozinha se aproximou dele e disse:

-- "Seu Manoel", isso aqui ainda não é o almoço. É só um lanche -- e começou a colocar aquele líquido pastoso na boca do "Seu Manoel".

Achei ter visto um brilho de satisfação nos olhos de "Seu Manoel", após ele ter engolido a primeira colherada.

-- Olá, Bento, bom dia. Que bom que você veio -- disse a Irmã Fabíola, o "anjo de Deus" que é o "faz tudo" naquele Asilo, cerca de uma hora depois, ao passar por mim e se dirigir ao "Seu Manoel".

-- Olá, "Seu Manoel", como vai o senhor, hoje? -- perguntou a Irmã Fabíola, enquanto removia o mosquiteiro que o cobria e começava a examiná-lo.

Mais uma vez, eu pensei ter visto os olhos de "Seu Manoel" se iluminarem quando a Irmã Fabíola o tocou e começou a dizer-lhe palavras carinhosas e de estímulo. Não resisti e perguntei:

-- O que é que ele tem?

-- Ah, são tantas coisas...

-- Ele consegue falar?

-- Uma palavra aqui e acolá com extrema dificuldade.

O Dominó e os internos com os quais eu jogava demandavam a minha atenção. Porém, de soslaio, (sempre quis escrever essa palavra num texto.. rsrs) eu continuava prestando atenção no trabalho da Irmã Fabíola e esperando que algum sorriso brotasse da boca sem dentes de "Seu Manoel".

Uns três minutos depois, "Seu Manoel" pronunciou uma palavra. Por mais que eu tente, não consigo lembrar que palavra foi. Contudo, naquele instante uma possibilidade criou raízes em meu coração. Permita-me explicar.

Eu já exercito a comunicação de uma só palavra com pessoas portadoras de deficiências auditivas profundas. Há alguns meses, eu visitei Mercês, que faleceu na semana passada, aos 90 anos. Mercês ficou muito feliz com apenas duas palavras que eu pronunciei separadas uma da outra por minutos.

ELEGANTE. Era assim que eu lembrava de Mercês há quarenta e poucos anos, quando minha tia me levava ao escritório onde elas trabalhavam.

CHEIROSA. Por onde Mercês passava, o cheiro agradável dos perfumes que ela usava impregnavam o ambiente.

Mercês riu muito e discorreu durante vários minutos, com os olhos brilhando de alegria, sobre aquele tempo maravilhoso em que eu convivi com elas. A mente dela estava lúcida. As palavras fluíam claras e cheias de significado. Naquele instante, eu entendi que ela apenas não conseguia ouvir. Mas a mente continuava a funcionar perfeitamente.

Juntando a experiência de Mercês com a do jornalista francês Jean-Dominique Bauby, que sofreu um acidente vascular cerebral e ficou "preso no próprio corpo" (Locked-in Syndrom), completamente imobilizado (a exceção da sobrancelha esquerda, que ele passou a usar para se comunicar com o mundo), eu acalentei no meu coração a possibilidade de que a mente de "Seu Manoel" possa estar funcionando.

Sim, em ambientes como aquele Asilo, há muitas pessoas com a Mente em pior estado do que o Corpo. São aqueles para quem o Alzheimer já é uma realidade visível. Ou, outros, para quem o exagero no uso de substâncias entorpecentes (como o alcóol e as drogas) provocaram danos irreversíveis na Mente.

No entanto, aquela experiência com o "Seu Manoel" me fez considerar, seriamente, a possibilidade de que ali mesmo, perto de mim, possa haver pessoas com a Mente funcionando, mas sem poder responder com o Corpo.

Que Deus continue me ensinando aquilo que Salomão já dizia há milênios atrás:

"Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração".


Abcs Bento Souto