quarta-feira, junho 17, 2009

O DEUS DESCONHECIDO

Por acaso você já teve curiosidade de saber quem era aquele DEUS DESCONHECIDO que o apóstolo Paulo mencionou em Atos 17:23, durante o discurso que ele proferiu no Areópago de Atenas? Você acha que Paulo disse que o DEUS DESCONHECIDO era o Deus que ele anunciava apenas porque aquele era um "deus" sem nome?


 

Eu lhe convido a visitar a Grécia antiga com Don Richardson, escritor do livro O Fator Melquisedeque, e conhecer a história de Epimênedes, profeta do DEUS DESCONHECIDO.


 


 

Bento Souto

bento@caiofabio.com

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Os atenienses


 

Em alguma época, durante o sexto século antes de Cristo, numa reunião do conselho na Colina de Marte, em Atenas...


 

"Diga-nos, Nícias, que aviso o oráculo de Pítias lhe deu? Por que esta praga caiu sobre nós? E por que os inúmeros sacrifícios realizados de nada adiantaram?"


 

O impassível Nícias olhou de frente o presidente do conselho e afirmou:

"A sacerdotisa declara que nossa cidade se encontra sob uma terrível maldição. Um certo deus a colocou sobre nós por causa do medonho crime de traição do rei Megacles contra os seguidores de Cylon."


 

"É verdade! Lembro-me agora", disse sombriamente outro membro do conselho. "Megacles obteve a rendição dos seguidores de Cylon com uma promessa de anistia, depois violou prontamente sua própria palavra e os matou! Mas qual é o deus que ainda nos condena por esse crime? Já oferecemos sacrifícios de expiação a todos os deuses!"


 

"Não é bem assim", replicou Nícias. "A sacerdotisa afirma que resta ainda um deus a ser apaziguado."


 

"Quem poderia ser?" perguntaram os anciãos, olhando incrédulos para Nícias.


 

"Não posso contar-lhes", respondeu ele. "O próprio oráculo parece não saber o seu nome. Ela disse apenas que..."


 

Nícias fez uma pausa, observando as faces ansiosas de seus colegas. Enquanto isso, da cidade enlutada à volta deles, ouvia-se o eco de milhares de cânticos fúnebres.


 

Nícias continuou: "... precisamos enviar um navio imediatamente a Cnossos, na Ilha de Creta, e trazer de lá para Atenas um homem chamado Epimênides. A sacerdotisa assegurou-me que ele saberá como apaziguar esse deus ofendido, livrando assim a nossa cidade."


 

"Não existe alguém suficientemente sábio aqui em Atenas?" esbravejou um ancião indignado. "Temos de apelar para um... um estrangeiro?"


 

"Se conhece algum grande sábio em Atenas, pode chamá-lo", disse Nícias. "Caso contrário, cumpramos simplesmente as ordens do oráculo."


 

Um vento frio, frio como se tocado pelos dedos gélidos do terror que varria Atenas, fez-se presente na câmara de mármore branco do conselho na Colina de Marte. Aconchegando-se mais em seu manto de magistrado, cada ancião refletiu sobre as palavras de Nícias.


 

"Vá em nosso nome, meu amigo", disse o presidente do conselho. "Traga esse Epimênides! Se ele atender ao seu pedido e livrar nossa cidade, nós o recompensaremos."


 

Os demais membros do conselho concordaram. O calmo Nícias, de voz suave, levantou-se, inclinando-se diante da assembléia, deixando a câmara. Ao descer a Colina de Marte, ele se encaminhou para o porto de Pireu, que ficava a 13 km de distância, na Baía de Falerom. Um navio achava-se ali ancorado.


 

Epimênides desceu agilmente para a terra, em Pireu, seguido de Nícias. Os dois homens encaminharam-se de imediato para Atenas, recobrando aos poucos a força das pernas depois da longa viagem por mar, desde Creta. Ao entrarem na já mundialmente famosa "cidade dos filósofos", os sinais da praga eram vistos por toda a parte. Mas Epimênides observou outra coisa:


 

"Nunca vi tantos deuses!" exclamou o cretense para o seu guia, piscando surpreso.


 

Falanges ladeavam os dois lados da estrada que saía do Pireu. Outros deuses, centenas deles, adornavam um terreno íngreme e rochoso, chamado acrópole. Tempos depois, nesse mesmo lugar, os atenienses construíram o Partenon.


 

"Quantos são os deuses de Atenas?" inquiriu Epimênides.


 

"Várias centenas pelo menos!" replicou Nícias.


 

"Várias centenas!", foi a exclamação espantada de Epimênides.


 

"Aqui é mais fácil encontrar deuses do que homens!"


 

"Tem razão!", riu o conselheiro Nícias. "Não sei quantos provérbios já foram feitos sobre 'Atenas, a cidade saturada de deuses'. Com a mesma facilidade que se tira uma pedra da pedreira, outro deus é trazido para a cidade!"1


 

Nícias parou repentinamente, refletindo sobre o que acabara de dizer. "Todavia", começou pensativo, "o oráculo de Pítias declara que os atenienses precisam apaziguar ainda um outro deus. E você, Epimênides, deve promover a intercessão necessária. Ao que parece, apesar do que eu disse, nós, atenienses, ainda precisamos de mais um deus!"


 

Jogando a cabeça para trás e rindo, Nícias exclamou: "Realmente, Epimênides, não consigo adivinhar quem poderia ser esse outro deus. Os atenienses são os maiores colecionadores de deuses no mundo! Já saqueamos as teologias de muitos povos das vizinhanças, apoderando-nos de toda divindade que possamos transportar para a nossa cidade, por terra ou por mar."


 

"Talvez seja esse o seu problema", disse Epimênides com um ar misterioso.


 

Nícias piscou os olhos para o amigo, sem compreender, como quem deseja um esclarecimento desse último comentário. Mas alguma coisa na atitude de Epimênides o silenciou. Momentos depois, chegaram a um pórtico com piso de mármore, junto à câmara do conselho na Colina de Marte. Os anciãos de Atenas já haviam sido avisados e o conselho os esperava.


 

"Epimênides, agradecemos sua ... " começou o presidente da assembléia.


 

"Sábios anciãos de Atenas, não há necessidade de agradecimentos." Epimênides interrompeu. "Amanhã, ao nascer do sol, tragam um rebanho de ovelhas, um grupo de pedreiros e uma grande quantidade de pedras e argamassa até a ladeira coberta de relva, ao pé desta rocha sagrada. As ovelhas devem ser todas sadias e de cores diferentes - algumas brancas, outras pretas. Vocês não devem deixá-las comer depois do descanso noturno. É preciso que sejam ovelhas famintas! Vou agora descansar da viagem. Acordem-me ao amanhecer."


 

Os membros do conselho trocaram olhares curiosos, enquanto Epimênides cruzava o pórtico em direção a um quarto sossegado, enrolando-se em seu manto como num cobertor e sentando-se para meditar.


 

O presidente voltou-se para um dos membros jovens do conselho'. "Veja que tudo seja feito como ele ordenou", disse ele.


 

"As ovelhas estão aqui", falou o membro jovem, humildemente.


 

Epimênides, despenteado e ainda meio dormindo, saiu de seu descanso e seguiu o mensageiro até a ladeira que ficava na base da Colina de Marte. Dois rebanhos - um de ovelhas pretas e brancas e outro de conselheiros, pastores e pedreiros - achavam-se à espera, debaixo do sol que nascia. Centenas de cidadãos, desfigurados por outra noite de vigília cuidando dos doentes atingidos pela praga e chorando pelos mortos, galgaram os pequenos outeiros e ficaram observando ansiosos.


 

"Sábios anciãos", começou Epimênides, "vocês já se esforçaram muito ofertando sacrifícios aos seus numerosos deuses; entretanto, tudo se mostrou inútil. Vou agora oferecer sacrifícios baseado em três suposições bem diferentes das suas. Minha primeira suposição ..."


 

Todos os olhos estavam fixos no cretense de elevada estatura; todos os ouvidos atentos para captar suas próximas palavras.


 

" ... é que existe ainda outro deus interessado na questão desta praga - um deus cujo nome não conhecemos e que não está, portanto, sendo representado por qualquer ídolo em sua cidade. Segundo, vou supor também que este deus é bastante poderoso - e suficientemente bondoso para fazer alguma coisa a respeito da praga, se apenas pedirmos a sua ajuda."


 

"Invocar um deus cujo nome é desconhecido?" exclamou um dos anciãos. "Isso é possível?"


 

"A terceira suposição é a minha resposta à sua pergunta", replicou Epimênides. "Essa hipótese é muito simples. Qualquer deus suficientemente grande e bondoso para fazer algo a respeito da praga é também poderoso e misericordioso para nos favorecer em nossa ignorância - se reconhecermos a mesma e o invocarmos!"


 

Murmúrios de aprovação misturaram-se com o balido das ovelhas famintas. Os anciãos de Atenas jamais tinham ouvido essa linha de raciocínio antes. Mas, por que, perguntavam eles, as ovelhas deviam ser de cores diferentes?


 

"Agora'" gritou Epimênides, "preparem-se para soltar as ovelhas na ladeira sagrada! Uma vez soltas, deixem que cada animal paste onde quiser, mas façam com que seja seguido por um homem que o observe cuidadosamente." A seguir, levantando os olhos para o céu, Epimênides orou com voz profunda e cheia de confiança: "ó, tu, deus desconhecido! Contempla a praga que aflige esta cidade! E se de fato tens compaixão para perdoar-nos e ajudar-nos, observa este rebanho de ovelhas! Revela tua disposição para responder, eu peço, fazendo com que qualquer ovelha que te agrade deite na relva em vez de pastar. Escolha as brancas se elas te agradarem; as pretas se te causarem prazer. As que escolheres serão sacrificadas a ti - reconhecendo nossa lamentável ignorância do teu nome!"


 

Epimênides sentou-se na grama, inclinou a cabeça e fez sinal aos pastores que guardavam o rebanho. Estes vagarosamente se afastaram. Com rapidez e voracidade, as ovelhas se espalharam pela colina, começando a pastar. Epimênides ficou ali sentado como uma estátua, com os olhos baixos.


 

"É inútil", murmurou baixinho um conselheiro. "Mal amanheceu e raras vezes vi um rebanho tão faminto. Nenhum animal vai deitar-se antes de encher o estômago e quem acreditará então que foi um deus que o levou a isso?"


 

Epimênides deve ter escolhido esta hora do dia deliberadamente!" respondeu Nícias. "Só assim poderemos saber que a ovelha que se deitar o fará em obediência à vontade desse deus desconhecido, e não por sua própria inclinação!"


 

Mal Nícias terminara de falar quando um pastor gritou: "Olhem!"


 

Todos os olhos se voltaram para ver um carneiro dobrar os joelhos e deitar-se na relva.


 

"Eis aqui outro!" bradou um conselheiro surpreso, fora de si por causa do espanto. Em poucos minutos algumas das ovelhas se achavam acomodadas sobre a relva suculenta demais para que qualquer herbívoro faminto pudesse resistir - em circunstâncias normais!


 

"Se apenas uma deitasse, teríamos dito que estava doente!" exclamou o presidente do conselho. "Mas isto! Isto só pode ser uma resposta'"


 

Com os olhos cheios de reverência, ele se voltou, dizendo a Epimênides: "O que faremos agora?"


 

"Separem as ovelhas que estão descansando", replicou o cretense, levantando a cabeça pela primeira vez desde que invocara o deus desconhecido, "e marquem o lugar onde cada uma se acha. Façam depois com que os pedreiros levantem altares - um altar em cada ponto onde as ovelhas descansaram!"


 

Pedreiros entusiastas começaram a fazer argamassa e no final da tarde ela já havia endurecido o suficiente. Todos os altares se achavam preparados para uso.


 

"Qual o nome do deus que gravaremos sobre esses altares?" perguntou um dos conselheiros do grupo mais jovem, excessivamente ansioso. Todos se voltaram para ouvir a resposta do cretense.


 

"Nome?" repetiu Epimênides, como se refletindo. "A divindade, cuja ajuda buscamos, agradou-se em responder à nossa admissão de ignorância. Se agora pretendermos mostrar conhecimento, gravando um nome quando na verdade não temos a menor idéia a respeito dele, temo que vamos apenas ofendê-la!".


 

"Não podemos correr esse risco", concordou o presidente do conselho. "Mas com certeza deve haver um meio apropriado de - de dedicar cada altar antes de usá-lo."


 

"Tem razão, sábio conselheiro", declarou Epimênides com um sorriso raro. "Existe um meio. Inscrevam simplesmente as palavras agnosto theo - a um deus desconhecido - no lado de cada altar. Nada mais é necessário."


 

Os atenienses gravaram as palavras recomendadas pelo conselheiro cretense. A seguir, sacrificaram cada ovelha "dedicada" sobre o altar marcando o ponto em que a mesma havia deitado. A noite caiu. Na madrugada do dia seguinte os dedos mortais da praga sobre a cidade já se haviam afrouxado. No decorrer de uma semana, os doentes sararam. Atenas encheu-se de louvor ao "Deus desconhecido" de Epimênides e também a este, por ter prestado socorro tão surpreendente de um modo verdadeiramente engenhoso. Cidadãos agradecidos colocaram festões de flores ao redor do grupo despretensioso de altares na encosta da Colina de Marte. Mais tarde, eles esculpiram uma estátua de Epimênides sentado é a colocaram diante de um de seus templos.


 

Com o correr do tempo, porém, o povo de Atenas começou a esquecer-se da misericórdia que o "deus desconhecido" de Epimênides lhes concedera. Seus altares na colina foram negligenciados e eles voltaram a adorar centenas de deuses que se mostraram incapazes de remover a maldição da cidade. Vândalos demoliram parte dos altares e removeram pedras de outros. O mato e o musgo começaram a crescer sobre as ruínas até que ...


 

Certo dia, dois anciãos que se lembravam da importância dos altares pararam diante deles a caminho do conselho. Apoiados em seus bordões eles contemplaram pensativos as relíquias ocultas por trepadeiras. Um dos anciãos retirou um pouco do musgo e leu a antiga inscrição encoberta por ele: " 'Agnosto theo'. Demas - você se lembra?"


 

"Como poderia esquecer?" respondeu Demas. "Eu era o membro jovem do conselho que ficou acordado a noite inteira para certificar-me de que o rebanho, as pedras, a argamassa e os pedreiros estariam prontos ao nascer do sol!"


 

"E eu", replicou o outro ancião, "era aquele outro membro jovem e ansioso que sugeriu que fosse gravado em cada altar o nome de algum deus! Que tolice".


 

Ele fez uma pausa, mergulhado em seus pensamentos, acrescentando a seguir: "Demas, você talvez me considere sacrílego, mas não posso deixar de sentir que se o "Deus desconhecido" de Epimênides se revelasse abertamente a nós, logo deixaríamos de lado todos os outros!" O ancião barbudo balançou o bordão com certo desprezo na direção dos ídolos surdos e mudos que, em fileira após fileira, cobriam a crista da acrópole, em número maior do que nunca antes.


 

"Se Ele jamais vier a revelar-se", disse Demas pensativamente, "como nosso povo saberá que não é um estranho, mas um Deus que já participou dos problemas de nossa cidade?"


 

"Acho que só existe um meio", replicou o primeiro ancião. "Devemos preservar pelo menos um desses altares como evidência para a posteridade. E a história de Epimênides deve, de alguma forma, ser mantida viva entre as nossas tradições."


 

"Uma grande idéia a sua!" entusiasmou-se Demas. "Olhe! Este ainda está em boas condições. Vamos empregar pedreiros para pô-lo e amanhã lembraremos todo o conselho dessa antiga vitória sobre a praga. Faremos passar uma moção para incluir a manutenção de pelo menos este altar entre as despesas perpétuas de nossa cidade!"


 

Os dois anciãos apertaram-se as mãos para fechar o acordo e, de braços dados, seguiram caminho abaixo, batendo alegremente os bordões contra as pedras da Colina de Marte.

terça-feira, junho 09, 2009

JANUSZ KORCZAC - OUTRO "ANJO" DE VARSÓVIA

Rafael F. Scharf
Vice-Presidente da Associação Internacional Janusz Korczak da Inglaterra

A vida de Janusz Korczak é tão tocante que, ao contá-la, é necessário evitar a ênfase patética que se impõe, a fim de permanecer-se fiel àquele sobre o qual falamos.

Ele era, na mais profunda acepção do termo, um homem simples, toda afetação lhe era estranha. É certo que ele não imaginava que seu nome seria célebre, e é por isto que cada vez que o glorificamos publicamente, inaugurando um monumento em sua homenagem, eu me pergunto qual seria o seu comentário se sua boca de pedra pudesse falar.

Sua história foi recontada inúmeras vezes e continuará sendo, porque ela mostra melhor, sem dúvida, não importando o caso particular, o horror inexprimível da última guerra e a exterminação dos judeus poloneses.

Em 5 de agosto de 1942, durante a liquidação do gueto de Varsóvia, os hitleristas ordenaram o agrupamento das crianças do orfanato de Korczak e o envio das mesmas ao campo de morte de Treblinka. O 'Velho Doutor' reuniu duzentos pupilos, os fez colocar-se sabiamente em fileiras e, à sua frente, partiu com eles para o 'Umschlagplatz', no cruzamento das ruas Stawki e Dzika, onde todos foram colocados em vagões de carga e enviados para os fornos crematórios.

Esta marcha nas ruas do gueto foi vista por algumas centenas de pessoas, e a silhueta pequena de Korczak dirigindo-se para seu calvário, inconsciente de seu heroísmo, fazendo aquilo que lhe parecia evidente, excitava as imaginações. A novidade espalhou-se imediatamente, repetida de boca em boca com a força de detalhes inventados: que Korczak carregava nos braços os dois menores, coisa pouco provável, porque ele mesmo estava doente e tinha dificuldades em andar; que o 'Jundenrat' tinha intervindo no derradeiro momento e tinha despachado em seguida um mensageiro atrás da fila, portador de um salvo conduto somente para Korczak, que foi por ele rejeitado com desprezo; que para apaziguar as crianças ele tinha lhes dito que iam em excursão e que eles, confiantes, o seguiam sem choro e sem protesto. Mas nenhum embelezamento é necessário diante dessa verdade nua e crua; não é preciso ajuntar qualquer coisa para torná-la mais eloqüente. A antítese do espírito e das dificuldades é clara e definitiva: um homem sábio por excelência, desinteressado e bom, opondo-se aos covardes, bárbaros obtusos, que se mostravam sob seu aspecto mais satânico.

Entre os milhões de mortes anônimas, a de Korczak tem um grande significado. Nos campos e guetos, ele se tornou para muitos, uma inspiração, pois aí o que mais ajudava a sobreviver era a convicção obstinada e indestrutível que a dignidade humana poderia vencer , embora tudo parecesse provar o contrário.

A imprensa clandestina dos campos mostra bem o quanto esta derradeira caminhada sublime do Velho Doutor foi um reconforto e uma dose de ânimo para seus contemporâneos. A partir daí sua glória tem crescido e o mundo fez de Korczak um símbolo moral.

É preciso que nossa atenção à sua morte não obscureça o caráter de sua vida. Henryk Goldszmit (este era o seu verdadeiro nome – Janusz Korczak foi um pseudônimo tirado de um romance pouco conhecido de Kra Szewski) nasceu em Varsóvia há pouco mais de cem anos numa família abastada. O fato de seu pai ter sido um advogado conhecido e seu avô um médico mostra até que ponto o seu meio foi assimilado. Ele cresceu na solidão, preservado das influências do exterior, sem se dar conta de que era judeu e sem saber o que isso significava. Antes de terminar a escola ele perdeu o seu pai, atingido por uma doença mental. A miséria sucedeu a abundância. O jovem Henryk tomou sobre si, da maneira como pode, o encargo de sua mãe e irmã, e nos anos seguintes, freqüentemente passando fome, estudou medicina com enormes dificuldades. Quando, por fim, obteve seu diploma, as coisas começaram a melhorar, contribuindo também para isso sua reputação de escritor que se afirmava. Mas isto não durou muito tempo. Repentinamente um tipo de necessidade interior mudou completamente seu destino.

Com trinta e quatro anos ele abandonou o exercício da medicina para se ocupar de um orfanato, que do início ao seu fim, permaneceu associado ao seu nome. A idéia fixa de consagrar sua vida às crianças parecia possuí-lo. Ele não era um idealista ingênuo; o que o caracterizava era uma compreensão extraordinária da criança e a convicção da necessidade de lutar pelos seus direitos no mundo governado pelos adultos. Ele não tinha confiança no mundo governado pelos adultos, mas como cada verdadeiro reformador ele julgava que mesmo uma só pequena vela acesa valia mais que lamentar-se de escuridão. Sua intuição não excluía sua sensibilidade e ela está edificada sobre uma observação constante, clínica, poder-se-ia dizer, sobre um estudo minucioso dos fatos. Totalmente absorvido por sua única idéia, não havia lugar nele para tudo que os outros davam tanta importância – dinheiro, a celebridade, um lar, uma família.

Seu orfanato, construído e mantido exclusivamente graças às doações de pessoas caridosas, era destinado às crianças dos bairros pobres de Varsóvia. A obtenção de fundos para fins de caridade tinha então, como hoje, seu aspecto desagradável, que freqüentemente irrita aqueles que dela dependem. Korczak balançava a cabeça em desaprovação perante o preço do material gasto para encerar o assoalho antes de um baile de benemerência e ele se lamentava do tempo que perdia com quem vinha visitar o orfanato. Mas a força de sua personalidade fazia que os doadores considerassem uma honra o financiamento de seu trabalho.

No domínio da educação e da psicologia da criança, ele era um pensador pragmático original e, ao mesmo tempo, um pioneiro de princípios que serviam de modelos para outros. Ele se esforçava constantemente de refazer seu sistema baseado sobre a compreensão das necessidades mais profundas da criança. Sua influência se exercia tanto por sua presença direta quanto pelo que escrevia no jornal do orfanato preparado pelas crianças e destinados à elas mesmas; a leitura em comum dessa publicação era um acontecimento semanal dos mais importantes. Conta-se que ao longo de 30 anos de seu trabalho intenso, ele jamais deixou de fornecer um artigo por semana à redação. As regras do orfanato eram seguidas por um código, cujo parágrafo 1000 previa como a pena mais alta, a expulsão pura e simples. Cada criança que tinha reclamação contra outra tinha o direito de a fazer comparecer perante um tribunal composto por seus colegas. Korczak mesmo, se tivesse sido convocado, teria de se apresentar perante este tribunal e de se submeter a sua sentença.

À noite, após uma ronda em todos dormitórios, o Velho Doutor retornava ao seu quarto no sótão, a única 'casa' que ele teve durante toda a sua vida adulta, e lá, até tarde da noite, ele colocava ordem em suas notas e escrevia.

Ele era um escritor fecundo tanto no seu domínio profissional quanto, e antes de tudo, na sua criação para as crianças e sobre as crianças. Seus livros ilusoriamente simples nas suas formas e conteúdos, impregnados na mesma proporção de melancolia e humor, refletindo seus anseios interiores, muitas vezes satiricamente áspero em relação a sociedade, sempre cheios de emoção e compreensão, deixavam traços duráveis na memória de seus leitores jovens e velhos, destinando-se a ficar gravados na história da literatura desse gênero.
Lá pelos meados dos anos trinta Korczak envolveu-se em dois empreendimentos na Palestina. O que ele aí viu o comoveu e o refrescou espiritualmente. Sob o encorajamento de numerosos amigos e antigos discípulos ele começa então a pensar seriamente em fixar-se lá para sempre. Mas havia obstáculos. O que o atormentava sobretudo, era o medo de não encontrar um sucessor adequado para continuar seu trabalho em Varsóvia. Ou seja, o pensamento de se afastar de sua terra natal lhe era insuportável. Nas cartas que ele escrevia aos seus amigos para explicar as causas de suas hesitações ele invocava o 'seu Vístula' e 'sua Varsóvia bem-amada', das quais ele jamais se consolaria se tivesse que deixar. Além do mais, ele estava sem dinheiro e hesitava em se colocar dependente de qualquer um.

Quando os hitleristas fecharam os judeus de Varsóvia dentro do gueto, o orfanato perdeu sua casa à Rua Kruchmalna, do lado 'ariano', e transportou-se para locais provisórios, no interior dos muros do gueto. Naquele momento Korczak já percebia melhor que a maioria das pessoas que a máquina impiedosa os mataria a todos. Mas ele pensava em não renunciar ao seu direito de aliviar os sofrimentos. Alquebrado e doente, cada dia ele reunia as forças que lhe restavam e partia à procura de viveres e de medicamentos para as crianças. Às vezes ele não trazia nada de suas buscas obstinadas, outras vezes ele voltava somente com uma ínfima parte do necessário. Ele não temia solicitar com impertinência, de mendigar, de envergonhar as pessoas que se esquivavam de sua nobre ação. Nos dias em que ele nada encontrava ele não hesitava em dirigir-se mesmo aos piores especuladores e opressores judeus. Apesar de fome incessante cada vez mais insuportável e às doenças sempre mais freqüentes, ele cuidava para que seu orfanato funcionasse normalmente, a fim de que seus alunos pudessem sentir-se bem. Freqüentemente ele trazia dos locais mais distantes uma nova criança encontrada na rua, no fim de suas forças, para quem a bondade do Velho Doutor significava a salvação durante algum tempo ainda.

Nestas condições rigorosas levadas ao extremo e que em tempo normal é difícil de se imaginar, nós temos em Korczak, no seu trabalho cotidiano, um exemplo do que pode fazer um genuíno homem guiado pelo amor.

Sua vida é um modelo e somos tentados a ver nele, nesta silhueta franzina revestida de avental de inspetor que ele usava habitualmente, um exemplo típico de toda uma geração, uma encarnação da 'idade da criança'. Sua grandeza, que consistia nem mais nem menos em fazer seu dever, podia ser aquela de qualquer um, e mesmo sua morte trágica foi uma coisa comum, lá onde o martírio estava na ordem do dia.

Durante o 'Ano Korczak', instituído pela UNESCO para celebrar o centenário de seu nascimento, os escritores, os sábios, as pessoas de boa vontade em todas as partes do mundo, procuraram enriquecer-se com o conhecimento desse homem e de suas idéias, de sua vida e de sua morte, através de livros, de artigos e simpósios.

É de se supor que graças a isto, numerosos são aqueles que tomaram conhecimento do seu nome e do que ele significa. Sem dúvida é na Polônia e em Israel que ele é mais conhecido. Mas, nesse mundo barulhento e apressado de hoje em dia, a lembrança empalidece rapidamente. A despeito de todos os esforços ela desaparece progressivamente, sob uma massa de outros negócios. Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak.

Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto.

É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes.

segunda-feira, junho 08, 2009

O BANQUEIRO DOS POBRES – COMO TUDO COMEÇOU...

Tratava-se de encontrar um meio de ajudar essas 42 pessoas trabalhadoras e saudáveis. Eu não cessava de revolver o problema na mente, como um cão com seu osso. Se lhes emprestasse 27 dólares, elas poderiam vender seus produtos a quem quer que fosse e assim ver seu trabalho adequadamente remunerado, sem ter de apelar para os agiotas.

Estava resolvido: eu lhes emprestaria esses 27 dólares, e elas me reembolsariam quando estivessem em condições de fazê-lo.

Sufia precisava de crédito porque não tinha nenhuma reserva que lhe permitisse precaver-se contra os imponderáveis da vida, cumprir as obrigações familiares, prosseguir em sua atividade de fabricante de tamboretes, a fim de sobreviver em período de catástrofe.

Infelizmente não havia nenhuma instituição financeira capaz de satisfazer as necessidades dos pobres em matéria de crédito. Esse mercado do crédito, na ausência de instituições oficiais, fora açambarcado pelos agiotas locais, que sempre levavam seus "clientes" a se embrenhar mais fundo na estrada da pobreza. Uma estrada de mão única e muito congestionada.

Essas pessoas não eram pobres por estupidez ou por preguiça. Elas trabalhavam o dia inteiro, realizando tarefas físicas muito complexas. Eram pobres porque as estruturas financeiras de nosso país não tinham a disposição de ajudá-las a melhorar sua sorte. Era um problema estrutural, e não um problema individual.

Entreguei a Maimuna os 27 dólares, dizendo-lhe:

- Tome. Empreste esse dinheiro às 42 pessoas da nossa lista.

Todas elas poderão pagar os intermediários e vender seus produtos onde lhes propuserem um bom preço.

- Quando elas deverão pagar ao senhor?

- Quando puderem. Quando for vantajoso para elas vender seus produtos. Elas não vão me pagar juros. Não sou agiota.

Maimuna foi embora, sem dúvida um pouco perplexa diante da reviravolta sofrida pelos acontecimentos.


 

Normalmente, alguns segundos depois que ponho a cabeça no travesseiro já estou dormindo. Mas naquela noite eu não conseguia dormir; tinha vergonha de pertencer a uma sociedade incapaz de dar 27 dólares a 42 pessoas para ajudá-Ias a sobreviver por si mesmas.

Na semana seguinte subitamente me dei conta da insuficiência do que eu havia feito. Era uma solução pessoal, que obedecia a uma lógica puramente emocional. Eu me contentava com o empréstimo de 27 dólares, ao passo que era preciso encontrar uma solução institucional. Se outras pessoas tinham necessidade de capital, ir à procura do chefe do departamento de economia da universidade certamente não seria a solução. Uma pessoa pobre não pode subir uma colina para ir falar com um chefe de departamento. Além disso, os serviços de segurança do campus não a deixariam entrar, pensando tratar-se de um ladrão.

Era preciso fazer alguma coisa. Mas o quê?

Então resolvi entrar em contato com o gerente do banco local para lhe pedir que emprestasse dinheiro aos pobres. Tudo o que eu tinha de fazer era conseguir que uma instituição concedesse empréstimos a essas pessoas deserdadas. Aparentemente, uma coisa muito simples.


 

Foi então que tudo começou. Eu não tinha absolutamente intenção de me converter em credor; queria apenas resolver um problema imediato. Até hoje considero que meu trabalho e o de meus colegas do Grameen têm um único objetivo: pôr fim à pobreza, esse flagelo que humilha e denigre tudo o que um ser humano representa.

sábado, junho 06, 2009

IRENA SINDLER - O Anjo do Gueto de Varsóvia

Irena Sendler, em língua polaca
Irena Sendlerowa, (15 de Fevereiro de 1910 - 12 de Maio de 2008), também conhecida como "o anjo do Gueto de Varsóvia", foi uma activista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo contribuido para salvar mais de 2.500 vidas ao levar alimentos, roupa e medicamentos às pessoas barricadas no gueto, com risco da própria vida.

A Mãe das crianças do Holocausto

A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade. Irena Sendler

Quando a Alemanha Nazista invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de Bem-estar Social de Varsóvia, que organizava os espaços de refeição comunitários da cidade. Ali trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas. Graças a ela, esses locais não só proporcionavam comida para órfãos, anciãos e pobres como lhes entregavam roupa, medicamentos e dinheiro.

Em 1942, os názis criaram um gueto em Varsóvia, e Irena, horrorizada pelas condições em que ali se sobrevivia, uniu-se ao Conselho para a Ajuda aos Judeus, Zegota. Ela mesma contou: "Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário, entre cujas tarefas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde tive êxito ao conseguir passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto."

Quando Irena caminhava pelas ruas do gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, como sinal de solidariedade e para não chamar a atenção sobre si própria. Pôs-se rapidamente em contacto com famílias, a quem propôs levar os seus filhos para fora do gueto, mas não lhes podia dar garantias de êxito. Eram momentos extremamente difíceis, quando devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos e eles lhe perguntavam: "Podes prometer-me que o meu filho viverá?". Disse Irena, "Quê podia prometer, quando nem sequer sabia se conseguiriam sair do gueto? A única certeza era a de que as crianças morreriam se permanecessem lá. Muitas mães e avós eram reticentes na entrega das crianças, algo absolutamente compreensível, mas que viria a se tornar fatal para elas. Algumas vezes, quando Irena ou as suas companheiras voltavam a visitar as famílias para tentar fazê-las mudar de opinião, verificavam que todos tinham sido levados para os campos da morte.

Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto no Verão de 1942, conseguiu resgatar mais de 2.500 crianças por várias vias: começou a recolhê-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas logo se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para os esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacas de batatas, caixões... nas suas mãos qualquer elemento transformava-se numa via de fuga.

Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz e por isso não fica satisfeita só por manter com vida as crianças. Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais e as suas famílias. Concebeu então um arquivo no qual registava os nomes e dados das crianças e as suas novas identidades.

Os názis souberam dessas actividades e em 20 de Outubro de 1943 Irena Sendler foi presa pela Gestapo e levada para a infame prisão de Pawiak onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: ?Jesus, em Vós confio?, e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Papa João Paulo II.

Ela, a única que sabia os nomes e moradas das famílias que albergavam crianças judias, suportou a tortura e negou-se a trair seus colaboradores ou as crianças ocultas. Quebraram-lhe os ossos dos pés e as pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação. Foi condenada à morte. Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um "interrogatório adicional". Ao sair, gritou-lhe em polaco "Corra!". No dia seguinte Irena encontrou o seu nome na lista de polacos executados. Os membros da ?egota tinham conseguido deter a execução de Irena subornando os alemães, e Irena continuou a trabalhar com uma identidade falsa.

Em 1944, durante o Levantamento de Varsóvia, colocou as suas listas em dois frascos de vidro e enterrou-os no jardim de uma vizinha para se assegurar de que chegariam às mãos indicadas se ela morresse. Ao finalizar a guerra, Irena desenterrou-os e entregou as notas ao doutor Adolfo Berman, o primeiro presidente do comité de salvação dos judeus sobreviventes. Lamentavelmente a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio názis. De início, as crianças que não tinham família adoptiva foram cuidadas em diferentes orfanatos e pouco a pouco foram enviadas para a Palestina.

As crianças só conheciam Irena pelo seu nome de código "Jolanta". Mas anos depois, quando a sua fotografia saiu num jornal depois de ser premiada pelas suas acções humanitárias durante a guerra, um homem chamou-a por telefone e disse-lhe: "Lembro-me da sua cara. Foi você quem me tirou do gueto." E assim começou a receber muitas chamadas e reconhecimentos públicos.

Em 1965 a organização Yad Vashem de Jerusalém outorgou-lhe o título de Justa entre as Nações e nomeou-a cidadã honorária de Israel.

Em Novembro de 2003 o presidente da República Aleksander Kwa?niewski, concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polónia: a Ordem da Águia Branca. Irena foi acompanhada pelos seus familiares e por El?bieta Ficowska, uma das crianças que salvou, que recordava como "a menina da colher de prata".

Proposta para o Nobel da Paz

Irena Sendler foi apresentada como candidata para o prémio Nobel da Paz pelo Governo da Polónia. Esta iniciativa pertenceu ao presidente Lech Kaczy?ski e contou com o apoio oficial do Estado de Israel através do primeiro-ministro Ehud Olmert, e da Organização de Sobreviventes do Holocausto residentes em Israel.

As autoridades de O?wi?cim (Auschwitz) expressaram o seu apoio a esta candidatura, já que consideraram que Irena Sendler era uma dos últimos heróis vivos da sua geração, e que tinha demonstrado uma força, uma convicção e um valor extraordinários frente a um mal de uma natureza extraordinária.

O prêmio, no entanto foi dado a Al Gore pelo slide show sobre o clima global.

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Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Irena_Sendler


 

A história dessa filha da Ordem de Melquisedeque, Irena Sendler, nos foi enviada pelo Wilton Segundo. Agradecemos a contribuição dele e contamos com as de todos vocês que nos acompanham aqui.


 

Abração


 

Bento Souto

sexta-feira, junho 05, 2009

O BANQUEIRO DOS POBRES – 42 Famílias na Miséria pela falta de 27 dólares!

Por toda parte havia homens trabalhando, alguns no campo, outros consertando seu riquixá*, outros martelando metal. No campo, em Bangladesh, o trabalho é incessante. Fico sempre impressionado com a agilidade e a força física dos bengalis.

Latifee e eu retomamos o caminho até minha casa, no alto da colina. Quando lá chegamos, num passo lento, atravessamos o jardim com as últimas luzes do dia.

Subir e descer a colina a pé me faz um grande bem. Eu pensava na imensa defasagem existente entre as grandes fórmulas dos governos e as realidades da prática. Na Declaração Universal dos Direitos do Homem se diz que "toda pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar sua saúde, seu bem-estar e o de sua família, sobretudo para a alimentação, o vestuário, a moradia, os cuidados médicos, assim como os serviços sociais necessários; tem direito à segurança em caso de desemprego, de doença, de invalidez, de viuvez, de velhice ou nos outros casos de perda dos meios de subsistência em conseqüência de circunstâncias alheias à sua vontade".

A Declaração exige igualmente que os Estados assegurem "o reconhecimento e a aplicação efetiva" desses direitos.

Parecia-me que a pobreza culminava na negação efetiva de todos os direitos do homem, e não apenas na de um pequeno número deles. Os pobres não têm nenhum direito, independentemente das declarações assinadas pelos governos ou do que eles escrevem em seus grandes livros.

Tentei ver o problema do ponto de vista de Sufia. Como contornar a dificuldade do custo do bambu? Seria preciso subir até o alto do muro? Fazer um desvio? Procurar uma fenda por onde fosse possível passar?

Eu não via solução. Se sua vida era um inferno, isso acontecia porque o bambu custava 5 takas. A complicação toda era apenas essa. Ela não tinha o dinheiro necessário e estava presa nesse círculo vicioso: tomar emprestado do intermediário para lhe vender em seguida o produto de seu trabalho. Impossível sair dessa relação de dependência. Vistas desse ângulo, as coisas pareciam relativamente simples. Tudo o que eu devia fazer era lhe emprestar 5 takas.

Até aquele momento ela havia trabalhado por quase nada. Tratava-se inegavelmente de uma forma de escravidão. O intermediário costumava sempre pagar a Sufia um preço que só permitia a ela reembolsar os materiais e satisfazer suas necessidades elementares, quer dizer, sobreviver, obrigando-a assim a sempre pedir emprestado.

Sufia não sairia desse estado de semi-escravidão enquanto não encontrasse os 5 takas para se libertar. Sua salvação chegaria pelo crédito. Com o crédito ela poderia vender sem constrangimento seus produtos no mercado, obtendo uma melhor margem entre o custo dos materiais e o preço de venda.

No dia seguinte chamei Maimuna, uma aluna que coletava informações para mim, e lhe pedi que preparasse uma relação de todas as pessoas de Jobra que, como Sufia, tomavam emprestado de intermediários e se viam assim destituídas do fruto de seu trabalho.

Uma semana depois a lista já estava pronta. Havia nela 42 pessoas que tinham tomado emprestado um total de 856 takas, ou seja, menos de 27 dólares para o grupo todo.

- Meu Deus, tanta miséria nessas 42 famílias, e tudo isso porque lhes falta o equivalente a 27 dólares! - exclamei.

Maimuna permanecia de pé em silêncio. Estávamos ambos estupefatos, para não dizer indignados, em face de uma tal aberração.

* Veículo leve de duas rodas, com um lugar e puxado por uma pessoa. É usado sobretudo no Extremo Oriente. (N.T.)

terça-feira, junho 02, 2009

O BANQUEIRO DOS POBRES - COMO VIVER COM 2 CENTAVOS POR DIA?

Como nasci em Chittagong e falo o dialeto local, tinha menos dificuldade em ganhar a confiança dos aldeões do que se fosse estrangeiro. Mesmo assim, isso não era fácil.

Adoro crianças, e cumprimentar as mães por seus filhos sempre foi para mim um meio natural de colocá-Ias à vontade. Minha mãe teve catorze filhos, dos quais nove sobreviveram. Como eu era o terceiro, passei grande parte da infância dando mamadeira a meus irmãos e à minha irmã mais nova e trocando-lhes as fraldas. Em casa, sempre que tinha tempo, pegava no colo um bebê para acariciá-lo. Essa experiência se revelaria preciosa em meu trabalho.

Eu ia pegar no colo uma criança, mas ela se pôs a chorar e correu para perto da mãe.

- Quantos filhos a senhora tem? - perguntou-lhe Latifee.

- Três.

- Esse é muito bonito - disse eu.

Tranqüilizada, a mãe apareceu na soleira da porta com o filho nos braços.

Era uma jovem de uns 20 anos. Miúda, de pele morena e olhos negros, usando um sári vermelho, ela se parecia com milhões de mulheres que trabalham duro de manhã à noite numa miséria total.

- Como a senhora se chama?

- Sufia Begum.

- Quantos anos tem?

- Vinte e um anos.

Eu não tinha nem lápis nem bloco de notas, pois isso poderia afugentá-la. Encarregava meus alunos de anotar tudo depois.

- O bambu é da senhora? - perguntei-lhe.

-Sim.

- Como a senhora o obtém?

- Eu o compro.

- Quanto ele custa?

- Cinco takas. (Isso representava na época 22 cents de dólar.)

- A senhora tem esses 5 takas?

- Não, eu peço emprestado dos paikars.

- Os intermediários? O que a senhora combina com eles?

- Eu preciso vender para eles meus tamboretes de bambu no fim do dia para devolver o dinheiro emprestado. O que sobra é meu lucro.

- Por quanto a senhora vende o tamborete?

- Cinco takas e 50 paisas.

- Então a senhora tem um lucro de 50 paisas.

Ela assentiu com a cabeça. Isso equivalia a 2 cents de dólar, nem mais nem menos.

- Mas a senhora não poderia tomar emprestado o dinheiro e comprar a senhora mesma os materiais?

- Poderia, mas me cobrariam um absurdo. E as pessoas que apelam para eles empobrecem mais depressa ainda.

- Com quanto o agiota fica?

- Depende. Às vezes ele fica com 10% por semana. Eu mesma

tenho um vizinho que paga 10% por dia!

- E é tudo o que a senhora ganha fabricando esses belos tamboretes de bambu, 50 paisas?

-É.

Em todo o Terceiro Mundo as taxas usurárias são corriqueiras. Elas entraram de tal modo nos costumes que nem mesmo o financiado se dá conta do grau em que o contrato é leonino. Na área rural de Bangladesh um saco de arroz sem casca tomado de empréstimo no início do período de plantio deve ser reembolsado com dois sacos e meio no momento da colheita.

[...]

Toda sociedade tem seus agiotas. Nenhum programa econômico poderá deter o processo de alienação dos pobres enquanto estes permanecerem subjugados aos agiotas.

Sufia Begum retomou o trabalho; não tinha tempo a perder. Eu olhava suas mãozinhas, que trançavam os caules de bambu. Era assim que ela ganhava a vida, acocorada o tempo todo na terra endurecida. Seus dedos eram cheios de calos, e havia sujeira sob as unhas.

Como seus filhos poderiam romper o círculo infernal da pobreza para lograr ter uma vida melhor? Qual seria o futuro de seus bebês senão a miséria, agora e sempre? Como eles poderiam ir à escola se sua mãe mal ganhava para se alimentar, quanto mais para abrigá-los e vesti-los decentemente?

- Cinqüenta paisas é o que a senhora ganha por um dia inteiro de trabalho?

- Sim, nos dias bons.

Assim, ela ganhava o equivalente a 2 cents por dia: eu estava perplexo. Nos cursos que dava, eu falava em milhões de dólares, e ali, sob meus olhos, os problemas da vida eram decididos por centavos. Alguma coisa estava errada. Por que o curso da universidade não refletia em nada a realidade? Eu estava furioso comigo mesmo, furioso com um mundo tão duro, tão impiedoso. E sem o menor vislumbre de esperança no horizonte, nem a sombra de uma solução.

Sufia Begum era analfabeta, mas nem por isso deixava de ter habilidades. O simples fato de estar viva, sentada diante de mim, trabalhando, respirando, lutando calmamente dia após dia contra a adversidade, provava sem sombra de dúvida que ela era provida de uma habilidade útil - o sentido da sobrevivência.

A pobreza é velha como o mundo. Sufia não tinha nenhuma chance de melhorar sua situação econômica. Mas por quê? Eu era absolutamente incapaz de responder a essa pergunta. Desde a infância somos habituados a ver pobres à nossa volta e nunca perguntamos por que eles são pobres. No sistema econômico em que vivemos a renda de Sufia era mantida num nível tão baixo que ela não poderia jamais poupar um vintém, investir na expansão de sua base econômica. Por isso seus filhos estavam condenados a viver uma vida de penúria, sem nunca poder ter a menor reserva de dinheiro, exatamente como seus pais e os pais de seus pais.

Nunca nos passaria pela cabeça a idéia de que alguém poderia viver em desespero porque lhe faltavam 22 cents. Isso me parecia impossível, até mesmo ridículo. Eu deveria tirar do bolso a soma miserável de que precisava Sufia? Isso seria muito simples, muito fácil.

Por que minha universidade, meu departamento de economia, todos os departamentos de economia do planeta e os milhares de professores de economia inteligentes que há no mundo não tinham tentado compreender essas pessoas e socorrer aqueles que mais precisam de ajuda?

Resisti ao impulso de dar a Sufia o dinheiro de que ela precisava. Ela não pedia esmola. E, além do mais, isso não seria uma solução definitiva.



Muhammad Yunus
Banco Grameen, 10 de Julho de 1997.
(O Banqueiro dos Pobres - Editora Ática, 2000)

sexta-feira, maio 29, 2009

ALGUNS CRISTÃOS NÃO CRÊEM MAIS EM CONVERSÃO!


 

Queridos(as),


 

Eu acho incrível como os cristãos atuais não crêem mais na conversão de algumas pessoas. Inúmeras vezes eu sou advertido para não perder o meu tempo com fulano ou beltrana. Para muitos, parece que Deus nunca está incluído no futuro e que algumas pessoas são imutáveis. Esse sentimento está permeado de tal forma no inconsciente coletivo dos cristãos que raríssimos são os que esperam que o melhor aconteça.

Outro dia correu mundo afora a notícia de um provável cisma entre Edir Macedo e um dos bispos da IURD. Observando os comentários em vários sites e comunidades, ditas cristãs, eu só vi elucubrações de que o tal cisma talvez tenha ocorrido porque um tentou "passar a perna" no outro.

Por que o motivo da cisma entre Macedo e esse bispo não pode ser o fato dele (o Macedo ou o bispo) ter tido uma experiência real com Jesus Cristo e ter entendido e crido que o tempo da barganha acabou e que não se compra o favor de Deus com dinheiro ou com sacrifícios?

Por que não contamos com a possibilidade que algum deles possa ter tido uma experiência profunda com Deus?

Se vivêssemos nos dias de Saulo de Tarso, esperaríamos que ele se transformasse no apóstolo Paulo?

Duvido!

Ora, Paulo era ligado a uma religião que nega que o sacrifício de Jesus Cristo cobriu os nossos pecados e, ele próprio participou da caça e do apedrejamento de vários cristãos.

Não contamos com a possibilidade que Deus possa operar um milagre como esses porque, na verdade, nem oramos pra que gente como Macedo e iguais a ele se convertam ao Evangelho de Jesus.

Denunciar a perversão que eles fazem do Evangelho é uma coisa.

Condená-los ao Inferno, já, é uma prerrogativa que Deus não me deu.

Por isso oro e peço a Deus para que eu também não seja contaminado pela presunção de achar que algumas pessoas são imutáveis e que, por essa razão, elas podem ser objetos de nossas ofensas mais infames.


 

Abcs Bento Souto

quarta-feira, maio 27, 2009

O BANQUEIRO DOS POBRES – Trocando a teoria pela Realidade

Decidi voltar a ser estudante. Jobra seria minha universidade; os habitantes da cidade, meus professores.

Firmei o propósito de aprender o máximo possível sobre a aldeia. Para mim isso representaria uma oportunidade de vir a compreender a vida real de uma pessoa pobre. Com isso eu já teria dado um grande passo em relação ao ensino acadêmico. Ao tentar oferecer aos estudantes uma espécie de visão panorâmica, as universidades tradicionais haviam criado uma enorme distância entre os alunos e a realidade da vida. Quando podemos segurar o mundo na palma da nossa mão e o vemos panoramicamente, tendemos a nos tornar arrogantes - não percebemos que ao olhar as coisas de uma grande distância tudo fica borrado. O resultado é que acabamos por imaginar as coisas em vez de enxergá-las.

Então resolvi observar as coisas de perto; achei que se assim o fizesse eu as veria mais nitidamente.

Sentia-me dominado por um sentimento de impotência diante do fluxo cada vez maior de famintos a Daca. Organizações sociais criaram centros de fornecimento de comida em várias partes da cidade.

Os vários bairros se esforçavam por encontrar comida. Mas quantos homens poderiam ser alimentados cotidianamente? A fome se exibia em pleno dia, em todo o seu horror.

Eu tentava superar esse sentimento de impotência redefinindo meu papel. Obviamente não me seria possível ajudar muitas pessoas, mas eu poderia certamente me tornar útil a pelo menos um de meus semelhantes. Isso seria para mim uma grande satisfação pessoal. A idéia de dar uma ajuda verdadeira, mesmo que em pequena escala, em vez de me contentar com palavras, me devolvia a esperança. Senti-me reviver. Quando comecei a visitar famílias pobres de Jobra, sabia muito bem o sentido de minha busca. Mais que nunca, sabia aonde ia.

Comecei, pois, a visitar as famílias de Jobra para ver se podia ajudá-las diretamente de algum modo. O professor Latifee, meu colega, me acompanhava habitualmente. Ele conhecia a maioria das famílias e sabia melhor que ninguém como deixar à vontade as pessoas da aldeia.

Jobra se dividia em três setores: o muçulmano, o hindu e o budista. Quando visitamos o setor budista, levamos conosco nosso aluno Dipal Chandra Barua. Nascido numa família budista pobre de Jobra, ele estava sempre disposto a ser útil.

Um dia Latifee e eu nos detivemos diante de uma casa meio arruinada. Havia nela uma mulher que trabalhava o bambu para fabricar um tamborete. Não precisamos fazer um grande esforço de imaginação para adivinhar que sua família tinha todas as dificuldades do mundo para sobreviver.

- Gostaria de conversar com ela.

Latifee me conduziu por entre galinhas e vasos de plantas.

- Tem alguém aí? - perguntou ele de modo amável. Inteiramente absorta em seu trabalho, a mulher estava sentada na entrada da casa, sob o teto de palha apodrecida. Acocorada no chão, prendia entre os joelhos o tamborete já quase concluído, trançando os talos de bambu.

Ouvindo a voz de Latifee, ela rapidamente abandonou o trabalho, ergueu-se de um salto e desapareceu no interior da casa.

- Não tenha medo - disse-lhe Latifee. - Nós não somos estranhos. Somos professores da universidade. Somos vizinhos. Só queremos fazer algumas perguntas.

Tranqüilizada pelo tom cordial de Latifee, ela respondeu baixinho:

- Não tem ninguém em casa.

Ela queria dizer que não havia nenhum homem. Em Bangladesh as mulheres não devem falar com homens, a não ser que se trate de parentes próximos.

No pátio, crianças nuas davam cambalhotas. Surgiram vizinhos, que nos examinavam, imaginando o que teríamos ido fazer ali.

No setor muçulmano da cidade era freqüente que, ao falarmos com uma mulher, precisássemos fazê-lo com um tabique a nos separar de nossa entrevistada. O costume muçulmano do purdah*, que leva as mulheres casadas a se isolar do mundo externo, era estritamente observado. Essa era a razão pela qual eu precisava recorrer a uma intermediária, aluna ou estudante local, para conversar.

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purdah* - Literalmente, "cortina" ou "véu".(N.T)

segunda-feira, maio 25, 2009

O BANQUEIRO DOS POBRES – Gente morrendo de fome!


 

A aldeia de Jobra: Dos manuais à realidade


 

O ano de 1974 marcou-me como nenhum outro. Foi o ano da terrível fome que se abateu sobre Bangladesh.

A imprensa publicava reportagens terríveis, divulgando o número de mortos e de desnutridos nas aldeias distantes e nas capitais regionais do norte. A universidade onde eu exercia as funções de chefe do departamento de economia se situava na extremidade sudeste do país, e num primeiro momento não demos muita atenção ao fato. Mas começavam a surgir nas estações ferroviárias de Daca [capital de Bangladesh] homens e mulheres esqueléticos. Pouco depois, mortos. De casos isolados passamos para um fluxo ininterrupto de famintos a invadir Daca.

Eles estavam por toda parte. Era difícil distinguir os vivos dos mortos. Homens, mulheres, crianças: todos se pareciam. Sua idade também era algo insondável. Os velhos tinham aspecto de crianças, as crianças pareciam velhos.

O governo providenciou pontos de distribuição de sopa para os pobres, mas o alimento se esgotava muito antes de ser servido a todos.

Os jornalistas tentavam alertar a opinião pública. Institutos de pesquisa procuravam reunir informações quanto à origem dos famintos e suas possibilidades de sobrevivência.

Organizações religiosas se esforçavam por juntar os corpos a de lhes oferecer uma sepultura decente. Mas os cadáveres se acumulavam num ritmo tão acelerado que foi preciso rapidamente desistir da idéia.

Era impossível não ver esses famintos, impossível ignorar a sua existência. Eles estavam em toda parte, esguios, muito calmos.

Não gritavam nenhum slogan. Nada esperavam de nós. Estendidos na entrada de nossa casa, não nos condenavam por estarmos bem alimentados, a salvo da necessidade.

Morre-se de muitos modos, mas a morte por inanição é a mais inaceitável. Ela acontece lentamente. Segundo após segundo, o espaço entre a vida e a morte se reduz de modo inapelável.

Num determinado momento a vida e a morte ficam tão próximas que se tornam quase indistintas, e não se sabe se a mãe e o filho, prostrados ali no chão, ainda estão entre nós ou já partiram para o outro mundo. A morte sobrevém a passos tão silenciosos que não percebemos a sua chegada.

E tudo isso pela falta de um punhado de comida. Em torno desses famintos as pessoas matam a fome, mas eles não. O bebê chora, depois acaba por dormir, sem o leite de que precisa. Amanhã talvez ele já não tenha a força necessária para chorar.

Lembro-me de meu entusiasmo ao ensinar as teorias econômicas, mostrando que elas apresentavam respostas para problemas de todos os tipos. Eu era muito sensível à sua beleza e elegância. Mas de repente comecei a tomar consciência da inutilidade desse ensinamento. Para que poderia ele servir, quando as pessoas estavam morrendo de fome nas calçadas e diante dos pórticos?

A partir de então comecei a achar que minhas aulas eram uma sala de cinema onde podíamos relaxar, tranqüilizados pela vitória certa do herói. Eu sabia desde o início que todo problema econômico encontraria uma solução elegante. Mas a partir do momento que saía da sala de aula me confrontava com o mundo real. Lá os heróis eram moídos de pancadas, selvagemente pisoteados. Via a vida cotidiana tornar-se cada vez mais dura e os pobres ficarem cada vez mais pobres. Para eles, morrer de inanição parecia ser a única saída.

Assim, onde estava a teoria econômica que dava conta de sua vida real? Como continuar a contar histórias de faz-de-conta a meus alunos em nome da economia?

Eu só tinha um desejo: sair pela tangente, abandonar os manuais, fugir da vida universitária. Queria compreender a realidade que cerca a existência de um pobre, descobrir a verdadeira economia, a da vida real –e, para começar, a da pequena aldeia de Jobra.

Jobra ficava perto do campus; mais precisamente, a universidade tinha sido construída perto da aldeia...


 

Muhammad Yunus

(O Banqueiro dos Pobres - Editora Ática, 2000)

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Para mim, é impossível ler isso e não lembrar que é assim também no Brasil e em vários lugares do mundo. Só não vê que há algo errado com muitas das nossas teorias quem se recusa a ver ou desvia o olhar da vida real. As palavras de Jesus tornam-se tão fáceis de entender para quem não se nega a olhar.

A história de Yunus – O Banqueiro dos Pobres, continua. Através dela, espero que você veja como Deus age fora dos ambientes dos templos religiosos e, quase sempre, em confronto com os senhores da religião e da cultura.


 

Bjs Bento

O BANQUEIRO DOS POBRES! -- Prefácio

Minha experiência no Grameen deu-me uma fé inabalável na criatividade dos seres humanos. Ela me feZ concluir que eles não nascem para padecer com a fome e a miséria. Se estas os fazem sofrer em nossos dias, como aconteceu no passado, é porque desviamos os olhos do problema.

Estou profundamente convencido de que poderemos livrar o mundo da pobreza se estivermos determinados a isso. Essa conclusão não é fruto de uma esperança crédula, mas o resultado concreto da experiência do adquirimos em nossa prática do microcrédito.

O crédito, por si só, não poderia acabar com a situação de pobreza. Ele é apenas um dos meios que permitem sair da pobreza. Outras saídas podem ser abertas para facilitar a mudança. Mas para isso é necessário ver as pessoas de modo diferente e conceber um novo quadro para essa sociedade, coerente com essa nova visão.

O Grameen me ensinou duas coisas: em primeiro lugar, os conhecimentos que temos sobre os indíviduos e sobre as interações existentes entre eles são ainda muito imperfeitos; por outro lado, cada um indíviduo é importante. Toda pessoa tem um enorme potencial e pode influenciar a vida das outras no seio das comunidades e das nações durante sua existência, mas também além dela.
No fundo de cada um de nós existem muito mais possibilidades do que aquelas que tivemos ocasião de explorar até o presente. Se não criamos o ambiente favorável ao desenvolvimento do nosso potencial, nunca saberemos o que temos dentro de nós.

Cabe a nós decidir que rumo tomaremos. Somos os pilotos e os navegadores de nosso planeta.Se levarmos a sério o nosso papel, o destino que nos aguarda será necessariamente o que previmos.

Resolvi contar essa história por esperar de meus leitores uma reflexão sobre o que ela pode representar para eles. Se vocês julgarem a experiência do Grameen possível e convincente, eu gostaria de convidá-los a se juntar aos que acreditam na possibilidade de criar um mundo sem pobreza e que decidiram trabalhar nesse sentido. Quer sejam vocês revolucionários, liberais, conservadores, jovens ou velhos, podemos unir forças para resolver esse problema.

Pensem nisso.


Muhammad Yunus
Banco Grameen, 10 de Julho de 1997.
(O Banqueiro dos Pobres - Editora Ática, 2000 - Prefácio)
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O Comitê Norueguês do Nobel decidiu conceder o Prémio Nobel da Paz de 2006, dividido em duas partes iguais, Muhammad Yunus e ao Grameen Bank por seus esforços para criar desenvolvimento económico e social a partir de baixo. Paz duradoura não pode ser alcançada a menos que grandes grupos populacionais encontrem maneiras para sair da pobreza. Micro-crédito é um desses meios. Desenvolvimento a partir de baixo também serve para fazer avançar a democracia e os direitos humanos.(Press Release do Nobel da Paz - 2006)

A constatação do Comitê do Nobel de que o que Yunus fez foi mais do que revolucionar a economia e as finanças dos países e das pessoas. O melhor programa anti-terror ainda é o que promove o resgate das pessoas oferecendo-as condições de melhorar a vida delas e dos filhos. Respeito aos direitos humanos e avanço da democracia são apenas efeitos colaterais desse círculo virtuoso. Com certeza, essas idéias podem e estão mudando o mundo.

Melquisedeque saiu ao encontro de Abraão levando pão e vinho. Esses são os elementos que Yunus tem levado às pessoas: a possibilidade de se alimentar melhor e ter mais alegrias com a família e a comunidade.

No próximo post, veremos como o sonho de erradicar a pobreza do mundo começou.

Até lá!


Beijão

Bento Souto

domingo, maio 24, 2009

O BANQUEIRO DOS POBRES! -- Prólogo

O BANQUEIRO DOS POBRES!

Muhammad Yunus mora num dos países mais pobres do planeta. Embora tenha recebido 30 bilhões de dólares de ajuda externa desde a independência, Bangladesh não saiu do atoleiro.

Catástrofes naturais --ciclones, inundações ou fome -- devastam periodicamente o país. A fome de 1974 fez centenas de milhares de vítimas; as inundações de 1988 deixaram milhões de desabrigados; outras 150 mil pessoas morreram o durante o ciclone de 1992.

Entretanto, essas catástrofes não são nada, comparadas à subnutrição e à pobreza estrutural que fustigam Bangladesh.

Pelo menos 40% da população do país não chega a satisfazer as necessidades alimentares mínimas. Devido à subnutrição, o tamanho e peso médios da população estão diminuindo.

O analfabetismo atinge 90% da população de Bangladesh.

Classificado anteriormente como país de categoria 2 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Bangladesh regrediu para a categoria 3, a dos países no quais o risco de contrair malária e outras doenças tropicais é mais elevado. Raros são os turistas que se aventuram a ir para lá, e os que o fazem não permanecem por muito tempo.

A densidade populacional de Bangladesh é de nada menos que 1003 habitantes por quilômetro quadrado (hab/km2). A título de comparação, essa densidade só seria obtida se puséssemos no estado do Ceará toda a população do Brasil.

Uma enorme quantidade de homens e mulheres vive nas ruas, descalços, sem água limpa nem teto para se abrigar.

É difícil imaginar como Bangladesh poderia oferecer ajuda ao resto do mundo, e mais ainda aos países ricos e industrializados do Ocidente. Com o banco Grameen, contudo, assistimos a uma transferência de tecnologia sem precedentes: do Terceiro Mundo para os países desenvolvidos. E o que se transfere não é nada menos do que um modo de fazer desaparecer para sempre a pobreza do mundo.


O que se segue não é somente a história da descoberta, feita há trinta anos pelo professor Yunus, de que concedendo microcréditos aos mais desprovidos do planeta poderíamos realizar o que bilhões de dólares de ajuda externa não conseguiram.

É a história de um banco que se desenvolveu fornecendo as ferramentas e auto-assistência que permitiram a 12 milhões de cidadãos de Bangladesh -- 10% da população do país - a sair da pobreza.

É igualmente a história de uma revolução, a do microcrédito, que ajudou os pobres de sessenta países, entre os quais a China, a África do Sul, a França, a Noruega, o Canadá e os Estados Unidos, a assumir a sua responsabilidade e a tomar seu destino nas mãos. É também um grande projeto que, ainda durante a nossa vida, poderá livrar da pobreza o planeta e construir um futuro no qual a justiça social reencontrará todo o seu sentido.

É uma mensagem de esperança, um programa que tem por ambição relegar a pobreza aos museus, para que um dia nossas crianças possam visitá-los e nos perguntar como fomos capazes de ficar tanto tempo sem reagir diante dessa terrível situação.

É por isso que estamos tão orgulhosos de publicar este livro, que contribuirá para propagar as idéias inovadoras do professor Yunus.


Muhammad Yunus
Banco Grameen, 10 de Julho de 1997.
(O Banqueiro dos Pobres - Editora Ática, 2000 - Prólogo do editor)
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Quando Martin Luther King, Jr. disse que tinha um sonho de ver negros e brancos sentados à mesma mesa, estudando nas mesmas escolas e tendo os mesmos direitos, isso pareceu loucura aos ouvidos de muitos. Mas um homem ou uma mulher com um sonho --e que a ele persegue de modo incansável -- é alguém capaz de mudar o mundo.

Muhammad Yunus, um muçulmano habitante de Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, ousou sonhar com um mundo sem miséria e pobreza. Quem irá sonhar com ele e trabalhar para transformar esse sonho em realidade?

Eu convido você a acompanhar a história desse filho da Ordem de Melquisedeque -- e ganhador do Prêmio Nobel da Paz -- que eu pretendo contar ao longo das próximas semanas. Vamos sonhar juntos. Passe esse sonho adiante e faça o que estiver ao seu alcance para tornar esse sonho em realidade.

Beijão


Bento Souto

segunda-feira, maio 18, 2009

MUKHTAR MAI





 


 

A paquistanesa que não se calou

Mukhtar Mai, 28 anos, foi condenada por um crime que não cometeu, e pagou por isso ao ser estuprada coletivamente. Ao contrário da maioria das mulheres de seu país, que ao sofrerem essa violência cometem suicídio, ela resolveu falar. E assim deixou o mundo perplexo com seu ato de coragem e transformou o futuro de sua cidade


 

Violência

Em 22 de junho de 2002, Mukhtar Mai, pertencente à casta de camponeses Gujjar, no Paquistão, foi obrigada a pedir perdão por uma condenação feita pela tribo Mastoi, considerada superior a eles. O crime? O seu irmão Shakkur, de 12 anos, falou com Salma, uma mulher do clã Mastoi. Eles acusaram o garoto de ter ofendido Salma, que tem 27 anos, apenas por ter trocado algumas palavras... Após ser espancado pelo grupo, a polícia o prendeu - sob determinação da tribo. Então, a sua irmã foi escolhida pela família para pedir perdão aos Mastoi, por ser considerada uma mulher respeitável: ensina o Corão para as crianças, recebeu o divórcio do marido e não tem filhos. Ao chegar lá, porém, todos os homens estavam armados e sem nenhuma intenção de misericórdia. Eles a arrastaram até um estábulo e lá ela foi estuprada por quatro homens durante uma noite inteira.


 

O costume local

Mukhtar foi para o seu quarto aquele dia e ali permaneceu por semanas, pensando em suicídio. Depois de ter sido estuprada, o caminho que ela teria de seguir, segundo os costumes locais, seria cometer o suicídio. Só que as notícias que chegavam até ela eram mais revoltantes: seu irmão só foi solto após a sua família pagar fiança, e a tribo Mastoi ainda o ameaçava. Quando ela percebeu que o seu sofrimento tinha sido em vão, resolveu esquecer o suicídio, tão previsível.


 

A escolha pela vida

Mukhtar decidiu viver, para lutar por justiça e ajudar outras mulheres a terem uma vida mais digna. Apoiada pelos pais e fortalecida espiritualmente pelas lições do Alcorão, dizia: "Sou só a primeira gota d'água, mas a chuva virá. E muitas gotas de chuva acabam formando um grande rio."


 

Seu pai, ela, a mãe e quatro irmãos não sabiam ler, nem freqüentaram a escola. Porém, eram muçulmanos devotos, que rezavam cinco vezes ao dia. Mukhtar tinha uma mente privilegiada e conseguia memorizar trechos do Alcorão. Tranqüila, mansa no falar, essa mulher altiva de 1,70 metros de altura pensava, mantendo os profundos olhos negros voltados para baixo: "O Alcorão me protegerá."


 

A luta por Justiça

Chamada para depor na delegacia, ela foi induzida a deixar as suas impressões digitais em um papel em branco. Embora analfabeta, Mukhtar percebeu que ali seria colocado o depoimento que os policiais quisessem. E assim passou por vários depoimentos, sempre forçada pela polícia local a não dizer a verdade ao juiz. Mas ela conseguiu chegar até ele e falar tudo o que haviam feito, além de reconhecer os policiais que tentavam impedi-la de declarar a verdade. Após inúmeras audiências, o caso já havia repercutido em toda a imprensa.


 

A família

A família de Mukhtar Mai é da casta mais baixa dos gujar e vivia de escassos recursos dos campos de cana-de-açúcar e trigo. A casa era de barro e tinham somente poucas cabras e bois, uma vaca e um pedaço de terra. Não dispunham de luz elétrica, telefone, nem água corrente. Mukhtar casou-se aos 18 anos e não teve filhos. Um casamento arranjado. Ela não foi feliz. O divórcio era raro no Paquistão rural - a mulher era mal vista, mas os pais a apoiaram e em menos de um ano Mukhtar recebeu do marido o talaq (na lei islâmica, o repúdio do homem à mulher que a libertou oficialmente do casamento e a permitiu voltar para a casa da família em Mirvala.


 


 

O ensino que ela recebeu

Ghulam, pai de Mukhtar Mai, lhe ensinou a respeitar os mais velhos e a proibia de mentir. "Temos muito pouco, mas possuímos nossa honestidade", dizia à filha, o que fez com que ela desenvolvesse um forte senso de certo e errado.


 

A indenização

Por ordem do governo, a ministra federal para as mulheres, Attiva Inayatullah, deu-lhe um cheque de meio milhão de rupias, cerca de Us$ 8.200, (mais do que seu pai ganharia em décadas). Segundo a ministra, não era uma compensação, mas um pequeno símbolo de "nossa identificação" pelo sofrimento pelo qual Mukhtar passou. Mukhtar, que jamais havia visto um cheque, disse: "Não preciso de dinheiro. O que realmente preciso é de uma escola." Ela teve essa idéia ao perceber que a maioria de pessoas que com ela se solidarizavam eram educadas.


 

O dinheiro da indenização

Então, ela concordou em receber o cheque, desde que pudesse usar o dinheiro para a construção de uma escola para meninas. Determinada, comprou um terreno perto de casa e contratou trabalhadores para a construção de uma escola primária. Ela também ajudou, fazendo tijolos de barro e transportando para o local da obra. A Escola-Modelo para Meninas Mukhtar Mai tomou forma e abriu as portas em dezembro de 2002. O governo pavimentou a estrada e trouxe luz e telefone para Mirvala.


 

As alunas

Acompanhada de guarda-costas da polícia, foi de casa em casa pedir aos pais que enviassem as filhas para a nova escola. A tarefa não foi fácil, pois ouvia sempre a alegação: "Meninas não precisam aprender a ler"; ou: "Só os meninos precisam ser educados." Mukhtar se comprometeu, então, a mandar uma van para buscar cada menina.


 

A escola

A escola não tinha luxo. Em vez de cadeiras, as meninas se sentavam sobre sacos de aniagem. Mukhtar se sentava ao lado de algumas alunas, para também aprender a ler e escrever. Buscou mais recursos, vendeu seus brincos e uma vaca e quando a imprensa divulgou a história, chegaram muitas doações. Ela então contratou carpinteiros para fazer assentos e carteiras de madeira para as alunas. Foram instalados ventiladores no teto, tornando, assim, agradável o ambiente sufocante das aulas. Com saldo suficiente, abriu uma escola para meninos em Mirvala e outra para meninas numa aldeia próxima. E mais de 700 crianças de todas as castas (inclusive da casta mastoi) se misturavam livremente nas escolas.


 

Ajudando outras vítimas

A ação benemérita desta notável paquistanesa não parou por aí. Mulheres, algumas estupradas, outras mutiladas, outras espancadas, outras com cicatrizes horríveis no rosto - vítimas de ataques de ácido, ou sem nariz ou orelhas, punição para supostas adúlteras, procuravam Mukhtar. Foi então criada, ao lado da primeira escola, o Centro Mukhtar Mai de Assistência de Crise da Mulher, para o qual chegava, em média, diariamente, cinco vítimas, em busca de auxílio. Ninguém deixava de ser atendida.


 



 

O livro

Depois da repercussão que o caso teve na imprensa mundial, a jornalista Marie-Theres Cunny e Mukhtar Mai lançaram um livro, Desonrada, para contar essa história. O livro já foi traduzido para vários idiomas e lançado em muitos países, inclusive o Brasil.


 

Lançando sementes

Nós podemos ver nessa história é que, conforme escreveu o apóstolo Paulo, "Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes."
Podemos aprender com Mukhtar Mai que qualquer uma pessoa, mesmo que seja analfabeta pode fazer a diferença no mundo plantando o Bem e denunciando a injustiça, e isso deve começar onde estivermos.


 


"Sinto-me como uma pequena planta que começa a crescer. Ainda precisamos ver os frutos. Mas, na vila onde moro, histórias como a minha não acontecem mais".

Mukhtar Mai


 

Ordem de Melquisedeque

Eu me inclino diante do exemplo dessa mulher simples, a quem honro diante de todos porque, para mim, ela é serva do Deus Altíssimo, segundo a Ordem de Melquisedeque.


 


 

Bento Souto

bentosouto@caiofabio.com

sábado, maio 16, 2009

AOS ATEUS, COM CARINHO!

Acho que o argumento básico dos ateus é o seguinte: "Deus não existe porque há muitas religiões. Se Ele existisse, só deveria haver uma. Como existem muitas religiões, eu não sei qual delas seguir e nem qual o deus que existe, pois o deus de uma é diferente da outra. Cada uma delas tem um livro sagrado e os ensinos de uma são contrários aos ensinos da outra. Sendo assim, eu concluo que Deus não existe ou que, se existir, não faz diferença, pois ninguém sabe quem Ele é mesmo".

Todavia, no fundo, no fundo, o que vocês estão dizendo é:

-- Deus não existe porque Ele não se revelou a mim!

Ora, de uma forma infantil, era isso mesmo que eu dizia quando era ateu e falava, para espanto dos meus amigos: se deus existe, que ele faça essa laje cair na minha cabeça, agora!

Já houve uma época em que eu teria verdadeiro prazer em contar, em detalhes, como foi que Deus se revelou, de forma inequívoca, para mim. Mas, de que adiantaria isso pra você?

Alguém poderia ter um "testemunho" melhor do que Paulo, o apóstolo cristão? Afinal, o sujeito diz que ficou cego por uma luz; ouviu uma voz que dizia ser Jesus; e a voz mandou quem só conhecia Paulo como inimigo para fazer uma "oração milagrosa" que lhe curou da cegueira.

Ora, mas quem continuaria ateu depois de passar por isso?

Algum de vocês ainda continuaria ateu se passasse por algo desse tipo?

Hein? Imagina só isso. Você acaba de ler essa mensagem e já pensa em responder. Aí, do nada, você caí no chão, vendo uma luz tão intensa que te deixa cego. Então, você escuta uma voz [junto com o pessoal da tua casa -- pra você não achar que ficou doido] que diz duas vezes o seu nome:

-- Fulano(a), Fulano(a), por que me persegues?

Acho que a primeira coisa que alguém faria, se algo assim acontecesse, seria perguntar quem falava.

O que você faria se ouvisse como resposta:

-- Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Levanta daí e vai [cego mesmo] pra tal lugar que lá te dirão o que deverás fazer?

Eu pergunto se, depois disso tudo, alguém iria pra outro lugar, senão para onde a voz que dizia ser Jesus mandou? Será que alguém diria algo do tipo:

-- Ei, eu estou cego. Vocês dizem que ouviram a mesma Voz que eu eu ouvi. Mas, larga isso pra lá... eu continuo cego, mas me leva lá pro Hospital Sírio Libanês... lá eles tem bons oftalmogistas e psiquiatras. Tenho certeza que tudo não passou de "alucinação coletiva"... Alguém diria isso?

Então, depois de três dias lá, no lugar que a voz mandou você ir, chega alguém que você não conhece, põe as mãos na sua cabeça, e diz:

-- Fulano(a), irmão(ã), Deus me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu na tua casa, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. Daí, após essas palavras, caí algo como escamas dos seus olhos e você torna a enxergar.

Me diga, sinceramente, você passaria por isso tudo e ainda diria: sou ateu? Penso que não.

Contudo, se isso tudo acontecesse contigo, saiba, isso não teria nenhum efeito sobre ateus como você. Sim, nada mudaria para os que dizem que Deus não existe. Eles continuariam sem crer porque nada parecido lhes aconteceu e exigindo que, o que aconteceu com você aconteça com eles também para que eles creiam. E sabe o que seria mais curioso? Eles iriam dizer que você é louco, mentiroso, tolo, etc. Eles apenas não considerariam como verdadeira a possibilidade de que você conseguiu ter a "prova" que eles exigem.

Ou seja, a prova que um ateu exige como evidência para aceitar a existência de Deus não serve como prova para outro ateu. Sim, porque quando quando alguém diz, "eu era ateu, mas Deus se revelou a mim de maneira inconfundível", os ateus não acreditam. Portanto, em minha opinião, querer "provar" para um ateu que Deus existe é a mais completa pura perda de tempo.

Assim, o que me leva a escrever isso tudo não é para "provar" que Deus existe. Mas, apenas para dizer que o que eu pedia para acontecer comigo, quando eu era ateu, aconteceu; e eu não posso e nem quero negar. Deus se revelou a mim. Minha oração sincera é que Ele também se revele a você.


Bjs


Bento Souto

quarta-feira, maio 06, 2009

E O LIVRE-ARBÍTRIO?

E o Livre-Arbítrio?

Ah, quanto mais eu leio, mas eu acho que esse é um termo vazio. Nem sabemos o que estamos dizendo ao afirmar que o Homem possui Livre-Arbítrio.

Qual desses homens possui Livre-Arbítrio?

1) O Homem (Adão e Eva) antes de pecar.
2) O Homem caído e sem Cristo.
3) O Homem salvo por Jesus Cristo, mas ainda vivendo nesse mundo.
4) O Homem glorificado nos céus.

O Livre Arbítrio desses 4 Homens acima descritos são iguais?

Depois de ler The Bondage of the Will (Servum Arbitrium), escrito por Lutero (você encontra aí na Christian Book Distribuitors, www.christianbook.com - ISBN: 0800753429), em resposta ao que escreveu Erasmo de Roterdã (De Libero Arbitrium), O Livre-Arbítrio, eu não posso mais dizer que esses 4 Homens possuem o mesmo Livre-Arbítrio.

Todavia, somente para demonstrar que Livre-Arbítrio é um termo vazio, vamos olhar uma definição do que é Livre- Arbítrio.

Um amigo escreveu:
"Livre Arbítrio - liberdade de auto determinação e ação independente de causas externas"

Eu concordo com ela. Acho que a definição é precisa. No entanto, tenho minhas dúvidas de que vejamos o mesmo sentido nessa descrição. Note que a definição diz "liberdade de auto (self, certo?) determinação (escolha, concorda?) e ação (não vou nem entrar na questão de Paulo dizer que escolhe o Certo e faz o Errado, fica pra outra ocasião!) independente (aparte, isolado, correto?) de causas externas (na intimidade do ser, apenas com as coisas do ser, certo?).

Bem, vamos testar se alguma escolha pode ser feita nessas condições. Onde vamos tomar o café da manhã? Na Waffle House ou na IHOP (International House of Pancake)? De que você gosta mais Waffle ou Panqueca? Você deixa para que eu decida? Você gosta mais de panqueca, e eu de waffle, mas você decide ir comer waffle, pois o que importa é a minha companhia? Você gosta mais de estar comigo do que comer panqueca? Infelizmente, a "causa externa" está presente em todos esses processos de escolha. Portanto, o arbítrio não é livre de "causas externas".

Vamos ao cinema. Não, é melhor você ir sozinho para eu não atrapalhar sua escolha. Que filme você decide assistir entre os 12 que estão passando? Sua escolha foi por causa do ator ou atriz? Foi por causa do horário em que ele vai começar? Foi por causa da trama? Foi por que alguém disse que o filme era bom? Onde você vai sentar ao entrar na sala de exibições? Bem no centro, para poder ver melhor a tela? Bem ao fundo, ou na ponta...? Por que você escolhe o lugar onde senta? Não tem jeito, em todas essas escolhas há "causas externas".

Bem, vamos tentar fazer uma escolha sem "causas externas". Você escolheu um modelo de camisa para comprar? E agora, vai ser a azul ou a marrom? Nenhuma das duas, vai ser uma outra cor porque ela é a sua cor favorita? Sinto muito, lá vem "causas externas" no exercício do seu arbítrio... Ou seja, qualquer escolha acontece por causa de inclinações ou preferências, se "preferir" chamar assim.

Livre arbítrio, no processo de escolha de comida, por exemplo,é quando você vai sozinho para um restaurante, na Malásia, e o garçom te dá o menu, e você nem sabe ler o que tá escrito. Você vai escolher um prato sem saber se é líquido ou sólido, se é pastoso ou seco, se é vegetal ou animal, se é cru ou cozido ou se é caro ou barato. Isso é o exercício do livre-arbítrio no processo de escolha de um prato. Ou seja, nenhuma informação (causas externas, lembra?).É como dizer escolha A ou B (se bem que você pode escolher A porque seu nome começa com A...causa externa!). Escolha 1 ou 2! Esquerdo ou direito. Etc.

Nesse ponto, talvez você pense como eu e diga: "peraí, e se for o contrário? E se Livre-arbítrio for um processo de escolha onde se sabe tudo sobre a escolha?" Ou seja, e se Livre-arbítrio for um processo de escolha onde se goste de duas coisas de igual forma? Se não houver preferência (ou inclinação, como eu prefiro chamar) por uma, apenas? A definição acima estaria errada, mas alguém poderia ter a mesma inclinação para os dois lados e escolher um, não seria isso Livre-arbítrio? Afinal, daqui a pouco vamos ter que lidar com o que levou Adão a escolher pecar!

Infelizmente, isso também não funciona. Vamos imaginar que você goste, igualmente, do azul e do marrom. Que camisa você irá comprar? Você só pode levar uma. Qual será? Azul ou marrom? Não adianta, se o gosto for igual, você irá ficar olhando para as camisas pra sempre, sem poder fazer uma escolha. Pois, se escolher uma é porque gostava mais daquela cor do que a outra. Percebe que não há saída? A escolha parece que nunca se livra de "causas externas".

Então, em minha opinião, Livre-Arbítrio é um termo vazio.

Peraí, Bento. E a escolha de Adão? Não foi exercício de Livre- Arbítrio? A de Adão foi livre de "causas externas"? Não estava Eva defronte dele comendo o fruto da árvore que Deus havia dito que se comesse morreria? Isso não é uma boa "causa externa"? E a de Eva, não foi uma escolha livre de "causa externas"? Não havia um outro ser dizendo que se ela comesse o fruto, ela seria igual a Deus? Isso não é uma "causa externa"? Se é assim, então qual foi a "causa externa" que levou Lúcifer a pecar? De onde veio a "inclinação para o mal" no ser dele?

Nesse ponto, acaba a razão humana. Chegamos ao limite da razão. Não há mais terreno para a Razão. Daqui pra frente só se vai pela Fé. É pela Fé que cremos que "Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta". Qualquer dúvida quanto a isso, eu sugiro que você leia de nova a epístola de Paulo aos Romanos. Lá, ele começa a elaborar o problema da Queda que atingiu toda a raça humana. Depois, ele segue com a Redenção através de Jesus Cristo... até que lá pelo final do capítulo 8 ele já está falando daqueles a quem Deus elegeu. E ele segue mostrando até onde a razão pode ir... Deus escolheu Jacó e não Esaú, antes que tivessem nascido ou feito mal ou bem, afim de que o propósito da eleição permanecesse... e segue até que pergunta se não há injustiça em Deus escolher uns e outros não. Note qual é a resposta. Doxologia. Louvor. Não há o que dizer. A razão humana não consegue explicar isso.

Falar de Livre-Arbítrio num ambiente ocidental é muito gostoso. Meu amigo, George Guilherme, repórter sênior da Globo foi para uns países asiáticos fazer uma reportagem sobre um esporte chamado Sepaktracal (parece nome de remédio, não é?). Num belo dia de domingo, na Malásia, ele acordou e quis ir para uma igreja. Perguntou na recepção do hotel e ninguém sabia o que era igreja. Perguntou para várias pessoas até se dar conta de que talvez ele fosse o único cristão naquela cidade. Se lermos Atos 16, veremos o motivo de George não encontrar cristãos ali. Deus tinha outros planos. Nós não sabemos explicar, apenas cremos e louvamos.

Ou você pode explicar por que eu vivi uma vida saudável (até hoje, graças a Deus) e minha prima Bernadete tem a mente de criança de dois dias de nascida? Nunca disse uma palavra. Nunca disse onde é que estava doendo. Nunca abraçou alguém e disse "eu te amo". Nunca saiu do lugar sem que alguém a carregasse. Nunca comeu nada que alguém não houvesse posto na boca dela. Nunca deu um passo na vida. Você pode explicar por que ela é assim e o irmão e a irmã dela não são? São 45 anos de uma vida dessa maneira.

Acho que nem você e nem ninguém pode. Deus disse que é Ele quem faz pessoas como Bernadete ou com qualquer outra enfermidade de nascimento (Ex. 4:11). Eu não entendo, será que por isso eu devo deixar de louvá-lo? Ou eu admito que a Razão Humana possui limites? Essa discussão toda sobre Livre-Arbítrio, Eleição, Predestinação, etc., é tentativa de explicar o inexplicável. Há muito exagero e gente, como dizia Calvino, "que entra nos aposentos íntimos de Deus sem a reverência devida". Eu não quero ser um deles.

Sou apenas alguém que tem convicção de que não sou melhor do que ninguém. Sou amigo e discuto a vaga de "principal dos pecadores". Por isso, termino com as palavras daquele personagem de Ariano Suassuna: "eu não sei não, só sei que foi assim".

Abraço,

Bento Souto
25 de Julho de 2004.

sábado, maio 02, 2009

ORDEM DE MELQUISEDEQUE

O que vem a ser essa ORDEM DE MELQUISEDEQUE?

Segundo a tradição Judaico-Cristã, Melquisedeque é o rei de Paz e “sacerdote do Altíssimo” que abençoou Abraão – o patriarca, de quem descendem as três religiões monoteístas da Terra: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Portanto, Melquisedeque já era “sacerdote do Altíssimo” antes essas religiões fossem estabelecidas ou houvesse o que é chamado de escritura sagrada.

A pergunta que eu me faço e convido você a fazer também é: como Abraão reconheceu que Melquisedeque era “sacerdote do Altíssimo”, se não havia um corpo de Pastores, Bispos ou Mulahs que atribuísse legitimidade eclesial a esse “sacerdócio”?

Será que nós também, a semelhança de Abraão, podemos reconhecer que alguém é “sacerdote do Altíssimo”, hoje, mesmo que esse alguém não possua títulos concedidos por entidades religiosas?

Eu creio que nós podemos, sim, desde que, de saída, admitamos que esse reconhecimento é subjetivo. Ou seja, ele acontece apenas no íntimo de cada um de nós.

Portanto, o que eu procurarei apresentar aqui são pessoas a quem EU reconheço como “sacerdotes do Altíssimo”. Essas pessoas abençoam a mim e muitos outros com suas vidas, suas ações e suas escolhas. Muitas dessas pessoas são completamente desconhecidas de nós, assim como eram para os Judeus dos dias de Jesus: os “magos do Oriente”; a mulher sírio-fenícia; o centurião romano e demais personagens a quem os escritores do Novo Testamento dão testemunho como pessoas de Fé exemplar. São pessoas de outros Credos (ou sem Credo algum), mas que são reconhecidas, por mim, como “sacerdotes do Altíssimo”.

Espero que você embarque comigo nessa viagem.

Espero também que você contribua com esse espaço enviando sugestões de pessoas e iniciativas que tenha feito você louvar a Deus. Faça isso escrevendo para bentosouto@caiofabio.com

Se você achar que deve, divulgue também para os seus amigos.


Beijão


Bento Souto
bentosouto@caiofabio.com